Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Nicolau Tolentino

Vens debalde, oh belíssima perjura,
Com o lindo rosto em lágrimas banhado: 
Já fui por ti mil vezes enganado, 
E sempre me afetaste essa ternura.

Esse alvo peito, que é de neve pura,
Mas de aço, e fino bronze temperado, 
Encobre um coração refalseado, 
Um coração de viva rocha dura.

Em vão trabalhas, se enganar-me queres,
Vejo correr com ânimo sereno 
Esse pranto em que fundas teus poderes:

Mal inventado ardil: ardil pequeno:
Tu mesma me ensinaste, que as mulheres 
Misturam com as lágrimas o veneno.

Francisco Mangabeira

Vejo-a por tudo e sempre... Do telhado
A espiar-lhe, entrando com os clarões do dia,
Ou furando a vidraça de lado a lado,
Sempre junta com o sol que além radia.

Por isto eu libo o cálice dourado
Onde treme o licor da fantasia,
Até cair no chão embriagado,
E vela em sonhos, como sempre a via...

Na solidão atroz deste abandono
Como um sonho consola! Que não venha
Algum ditoso perturbar meu sono.

Não me desfaçam este sonho lindo...
Se quer Deus que eu dormindo os gozos tenha,
Passem de longe e deixem-me dormindo! 

Ernani Rosas

Noite irmã da tristeza e da ansiedade
e das almas, que ignoram a alegria...
Sombra feita de assomo e claridade,
Evocadora ideal da nostalgia!...

Tua boca não canta uma elegia!
Calou-se a vibração da imensidade...
como um soluço à frouxa luz do dia,
ou, névoa, que velara a eternidade!

Não te ouso contemplar a face escura
e prossigo a cismar à luz dos astros...
Escondendo entre as mãos a fronte impura!

Para ocultar-me a lúgubre presença
do teu espectro, que ficou no rastro
da estrela, que lavrou minha sentença!... 

Tobias Barreto

Bela!... nem sentes o ruir da vida,
Celeste arroio que te cobre a planta,
Bafejada dos ecos, estremecida,
Etérea, límpida, impalpável, santa!...

Num fio odoro tua imagem sigo,
Teu nome doce como um hino entoo:
Eleva-me, que amar-te é voar contigo,
Ser águia e de anjo acompanhar-te o voo.

E tua alma também por que não voa?
Podíamos subir, vagar à-toa
Pelo infinito sós;

Eu faria de amor hinos e preces,
Um ninho para ti... Se tu quisesses,
Um ninho para nós... 

Cruz e Souza

Ó Mãos ebúrneas, Mãos de claros veios,
Esquisitas tulipas delicadas,
Lânguidas Mãos sutis e abandonadas,
Finas e brancas, no esplendor dos seios.

Mãos etéricas, diáfanas, de enleios,
De eflúvios e de graças perfumadas,
Relíquias imortais de eras sagradas
De amigos templos de relíquias cheios.

Mãos onde vagam todos os segredos,
Onde dos ciúmes tenebrosos, tredos,
Circula o sangue apaixonado e forte.

Mãos que eu amei, no féretro medonho
Frias, já murchas, na fluidez do Sonho,
Nos mistérios simbólicos da morte! 

Luís Delfino

Tinha doze anos; chego; de repente
Enlaça-me com força: vou fugi-la;
Aperta-me inda mais, feroz, tranquila,
Como uma fera angélica e inocente.

Quase achei-me sem mim no atrito quente;
E ao ver-lhe o azul da límpida pupila
Molhar-se todo de um vapor luzente,
E uma inquieta tristeza enfim cobri-la,

Lento e lento arranquei-me dela, e a custo,
E sem que disso ideia exata forme,
Logo um pouco a tremer, num vago susto,

Como cansada de um trabalho enorme,
Sobre o meu colo reclinando o busto,
A face em fogo, e soluçando, - dorme.

Augusto dos Anjos

Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A lâmpada aflogística de Davy!

Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho,
Como o desaguadouro atro de um rio...

E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

Fagundes Varella

Desponta a estrela d’alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.

Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minha alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
Oh! mundo encantador, tu és medonho!

Cruz e Souza

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...

Mário Pederneiras

Sob a meiga feição que nos conforta
Da velhice feliz destes Luares,
Sonoro um Sino plange e esta hora morta
Abre em Saudade Roxa pelos Ares.

E logo a Mágoa que este som comporta
Invade os Céus, oscila sobre os Mares,
E a Terra como que feliz suporta
O mais triste de todos os Pesares.

Nem uma sombra neste Céu - nem uma
E deste Eirado nem um som se evola;
Neste vale não afla uma só pluma...

Por esta Noite de alvos tons tristonhos
Em pesado tropel apenas rola
Toda a confusa legião dos Sonhos.

Mário Pederneiras

Da tua branca e solitária Ermida
Por caminhos de Céu que a Lua esmalta
Desces - banhada dessa Luz cobalta
O linho de Asa abrindo sobre a Vida.

Nada teu Passo calmo sobressalta
E quando a Mágoa as Almas intimida
Das Ilusões a turba renascida
Em ronda espalhas pela Noite alta.

E a claridade que se faz é tanta
Que logo a Terra fica cheia dessa
Sonora e estranha Luz que alegra e canta.

E iluminada de um Luar de Outono
A Alma feliz e impávida atravessa
A vasta e longa escuridão do Sono.

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