Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Hermes Fontes

Comoção de minha Alma iluminada...
Maturidade esplêndida do Amor...
Para quê? É-me inútil a escalada
e já descri de ser o vencedor.

Desfeito o altar, por que manter a escada?
Meu destino é de chamas e esplendor,
mas olho em derredor, não vejo nada,
senão a minha Sombra e a minha Dor!

A minha Dor - essa imortal ruína;
a minha Sombra - essa espiã divina,
e a minha Solidão, em torno a mim:

e esta desilusão, e esta saudade,
e esta mentira de celebridade,
e este cansaço de esperar o fim...

Álvares de Azevedo

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
apenas entre nós - e eu vivia
no doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
é sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!

Pe. Antônio Tomás

Ei-lo que segue ornado de mil flores,
De manto azul e túnica de neve,
A sorrir... a sorrir, porque tão breve
Fugiu da vida sem provar-lhe as dores.

Vão-no levando à cova... Os portadores
Do branco esquife, pequenino e leve,
São crianças também, pois não se deve
Deixar um anjo em mãos de pecadores.

Do funéreo cortejo me avizinho
E das crianças vou seguindo os passos
A cismar... a cismar pelo caminho.

E no caixão pendente dos seus braços,
Julgo estar vendo, não o louro anjinho,
Mas, uma alma de mãe feita em pedaços.

Vespasiano Ramos

Foi por ali, - contá-lo neste instante,
é abrir o livro que eu fechado tinha,
e lê-lo, folha a folha, emocionante,
desde a primeira à derradeira linha;

é desvendar a história cruciante
da imensa angústia que eu sofrendo vinha,
da imensa mágoa atroz e delirante,
da incomparável desventura minha!

Abrir o livro e, num febril transporte,
folha a folha, tremente, recitá-lo,
é desvendar o amor ingrato e forte

de quem, na vida, ansioso para tê-lo,
teve a suprema dita de encontrá-lo
e a suprema desgraça de perdê-lo!

Álvares de Azevedo

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flores!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...

Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

Marta de Mesquita

Oh! meu amor,escuta, estou aqui,
pois o teu coração bem me conhece,
eu sou aquela voz que, em tanta prece
endoideceu, chorou, gemeu por ti!

Sou eu, sou eu que ainda não morri.
Nem a morte me quer, ao que parece,
e vinha renovar se ainda pudesse
as horas dolorosas que vivi.

Oh! que insensato e louco é quem se ilude!
Quiz fugir, esquecer-te, mas não pude...
Vê lá do que teus olhos são capazes!

Deitando a vista pelo mundo além
desisto de encontrar na vida um bem
que valha o mal que tu me fazes!