Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Francisco Joaquim Bingre

Se a ti, onde Amor leva o pensamento,
Meu triste coração levar pudesse,
Dó terias, cruel, do que padece,
Se ainda em teu peito cabe sentimento.

Amar sem possuir é um tormento
Que só quem o suporta é que o conhece.
Não o conheces tu, pois te arrefece
Sempre, na ausência, o frio esquecimento.

Tu tens um coração que se persuade
Dever amar só quando se deleita
Na posse do prazer, da sociedade.

O meu segue outra estrada mais direita,
Ama distante, ferem-no a Saudade
O Ciúme infernal, a vil Suspeita.

Augusto dos Anjos

Ela é o tipo perfeito da ariana,
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dimana.

As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.

Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana.

Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne Soberana.

Luiz Guimarães Júnior

Por entre as largas filas silenciosas
Das sepulturas mal iluminadas,
Rugem as negras sedas odorosas,
Ao compasso de excêntricas risadas.

As grinaldas, de goivo entrelaçadas,
À frouxa luz das velas lacrimosas,
Rolam no pó dos túmulos, – lançadas
Da mesma sorte qual no palco as rosas.

Vão pela mão das nobres elegantes
As crianças risonhas, – cintilantes
De uma feroz e estúpida alegria:

Cruzam-se olhares de malícia, – enquanto
Os mortos sentem gotejar o pranto...
Que chora o orvalho quando expira o dia.

Cruz e Souza

Estrela triste a refletir na lama,
Raio de luz a cintilar na poeira,
Tens a graça sutil e feiticeira,
A doçura das curvas e da chama.

Do teu olhar um fluido se derrama
De tão suave, cândida maneira
Que és a sagrada pomba alvissareira
Que para o Amor toda a minh’alma chama.

Meu ser anseia por teu doce apoio,
Nos outros seres só encontra joio
Mas só no teu todo o divino trigo.

Sou como um cego sem bordão de arrimo
Que do teu ser, tateando, me aproximo
Como de um céu de carinhoso abrigo.

Judas Isgorogota

Plantei há muito uma semente antiga
Para que desse sombra e frutos desse
A mim e aos meus e aos mais... aos que pudesse
Livrar da dor, da fome e da fadiga...

A semente brotou e árvore amiga
Se fez e um ribeirinho em forma de S
Eis que lhe passa à sombra e eis que lhe tece
Quase idilicamente, uma cantiga.

Um dia toda se enflorou. E um dia,
Sentindo a mesma dor que ela sentia,
Sentindo os mesmos golpes do instrumento,

Ruímos nós dois num mesmo desenlace...
É que eu não quis que às mãos de alguém chegasse
O fruto amargo do meu pensamento...

Olavo Bilac

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.