Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Benjamim Silva

Há mágoas que não podem ser contadas,
Há mágoas que não podem ser ouvidas.
Devem ficar ocultas, sepultadas,
Dentro de nossas almas, escondidas.

Deixemo-las, assim, encarceradas,
Bem no íntimo do peito, reprimidas,
Até que um dia sejam renegadas,
Postas no rol das coisas esquecidas.

As mágoas que deprimem, que envergonham,
Não deverão jamais permanecer
No coração sincero dos que sonham.

Não fales, pois, daquela que te apouca:
Teus próprios lábios poderão tremer,
E tua própria voz queimar-te a boca.

Euclides da Cunha

Se acaso uma alma se fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos… Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos;

Amigo! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando – deste grupo bem no meio –

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
O mais triste, o mais pálido, o mais feio.

Augusto dos Anjos

Filha da raiva de Jeová - a Peste
Num insano ceifar que aterra e espanta,
De espaço a espaço sepulturas planta
E em cada coração planta um cipreste!

Exulta o Eterno e... tudo chora, tudo!
Quando Ela passa, semeando a Morte,
Todos dizem com os olhos para a Sorte
- É o castigo de Deus que passa mudo!

- Fúlgido foco de escaldantes brasas
- O sol a segue, e a Peste ri-se, enquanto
Vai devastando o coração das casas...

E como o sol que a segue e deixa um rastro
De luz em tudo, ela, como o sol - o astro -
Deixa um rastro de luto em cada canto!

Euclides da Cunha

Um dia a vi, nas lamas da miséria,
Como entre pântanos um branco lírio,
Velada a fronte em palidez funérea,
O frio véu das noivas do martírio!

Pedia esmola — pequena e séria —
Os seios, pastos de eternal delírio,
Cobertos eram de uma cor cinérea —
Seus olhos tinham o brilhar do círio.

Tempos depois num carro — audaz, brilhante,
Uma mulher eu vi — febril, galante…
Lancei-lhe o olhar e… maldição! tremi…

Ria-se — cínica, servil… faceira?
O carro numa nuvem de poeira
Se arremessou… e eu nunca mais a vi!

Florbela Espanca

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera…quebra-me o encanto

Luiz Guimarães Júnior

Soam ao longe as trompas vencedoras;
Vibra o hallali na mata gloriosa:
Latem os cães, e a cavalgada airosa
Das elegantes, fortes caçadoras,

Cabelo ao ar, altivas, tentadoras,
Qual de Diana a escolta poderosa,
Persegue a fera, e açula jubilosa
As matilhas cruéis e vingadoras.

No entanto, a castelã, triste e isolada,
À sombra dos frondosos arvoredos,
Pálida, loira, casta e enamorada,

Passeia ouvindo uns matinais segredos,
E, como a Margarida da balada,
Desfolha um malmequer entre os seus dedos.