Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Augusto dos Anjos

A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!

Eu sou, por conseqüência, um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas...

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!

Juvenal Antunes

És para o mundo a pérfida, a perdida,
Degradada no vício e no pecado.
Para mim és um anjo, imaculado,
Que eu nunca deixei de amar na vida!

Para os outros a esfinge incompreendida
De lábios mudos e de olhar gelado.
Para mim és mistério decifrado
Pela minha paixão esclarecida!

Maltratas-me, atraiçoas-me, espedaças
O coração que é teu com tal extremo...
Mas... não posso viver sem tuas graças!

Perdoo todo o mal que me fizeres,
Pois, tudo se reduz ao bem supremo
De te amar sobre todas as mulheres.

Juvenal Antunes

O coração não morre, ele adormece...
E antes morresse o coração traído
Mulher que choras teu amor perdido
Amor primeiro que não mais se esquece!

Quando tu vais rezar, quando anoitece
Beijas as contas do colar partido
E o coração num tímido gemido
Vem perturbar a paz de tua prece.

Reza baixinho, oh noiva desolada!
E quando à tarde, pela mesma estrada
Chorando fores esse imenso amor...

Geme de manso, juriti dolente
Vais acordar o coração doente...
Não o despertes para uma nova dor.

Gastão Macedo

Naquele tempo, se um tormento vago
Empolgava minha alma de criança,
Vinhas, ó mãe, numa carícia mansa,
Os olhos me secar, com teu afago.

Mas tu partiste e, desde então, eu trago
Comigo o germe da desesperança.
O tédio me atormenta e não se cansa
De fazer-me da vida um sonho aziago.

Tento chorar mas só minha alma chora,
Porque, de minhas pálpebras, agora,
Não rola o pranto, amenizando abrolhos,

E sofro, mãe... A dor maior é aquela
Que, dentro da alma, eternamente vela
Mas que não tomba em lágrimas dos olhos.

Luiz Guimarães Júnior

Vejo-te ao pé de mim, horas e horas,
Fito os olhos nos meus olhos: – vejo
Teu alvo rosto, e escuto o leve harpejo
De tuas breves frases sedutoras.

Ora me ris somente, ora demoras,
Toda coberta de sublime pejo,
E eu sinto, amiga, do teu casto beijo
Roçar-me a fronte as asas tentadoras.

À noite, enquanto as pardas mariposas
Voam-me em torno, – e as horas surdamente
Vibram profundas, longas e piedosas,

Vens visitar-me, tímida, inocente,
Coroada de lírios e de rosas...
E há quem diga que tu estás ausente!

Juvenal Antunes

Vai-te. Toda paixão na nossa idade
E creio até que em idade mais madura
Por mais que dure não será tão dura
Que resista do tempo a tempestade

Recuperemos, pois, a liberdade!
Bendito o mal, e mais bendita a cura
Adeus, forma gentil de uma alma pura
Sonho que se desfez em realidade

Queres arcar com as leis do fatalismo
Toca decerto as raias do heroísmo,
A persistência com que tudo arrostas

Eu, no entanto, confesso-me vencido:
- não posso assim viver, de horror transido
Com um cadáver de amor pregado às costas.