Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Guterres Casses

Na expiação de falhas milenárias,
Eis-me de novo na matéria inglória!
E, dessas migrações extraordinárias,
Nada guardei nas aras da memória!…

Não sei que culpas ou que faltas várias
Perpetrei nessa antiga trajetória!
Nem que lições cruéis e necessárias
Eu recebi na fase transitória!…

Não lembro o que me deu essa outra vida:
Se foi brilhante e farta em seus prazeres,
Ou foi trevosa e pobre e dolorida!…

Mas sei que volto às multiformas vis,
Pelo Mal que causei aos outros seres,
Pelo Bem que colhi e que não fiz!…

Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!

Antero Bloem

Quando depões sobre o teu Cristo amado,
- Esse Cristo que pende de teu peito,
Ungido de ternura e de respeito -
Um beijo de teu lábio imaculado,

Eu, sacrílego, sinto-me levado
- Ou seja por inveja, ou por despeito -
A arrebatar o Cristo do teu peito
E em teu peito morrer crucificado.

Mas quando vejo, do teu lábio crente,
Cair sobre Jesus a prece ardente,
Talvez por nosso amor, talvez por mim,

Ardo na chama intensa dos desejos
De, arrependido, sufocar meus beijos
Nesse teu alvo Cristo de Marfim. 

Augusto dos Anjos

Das trombetas proféticas o alarde
Falou-lhe, por seus onze augúrios certos:
“É maldito o teu nome! E aos céus abertos,
Não há divina proteção que o guarde!”

Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos
E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E, à tarde,
Saiu aos tombos, como um cão covarde,
A percorrer desertos e desertos...

E, assombrado, com medo do Infinito,
Por toda a parte, onde, aos tropeços, ia,
Por toda a parte viu seu nome escrito!

Vieram-lhe as ânsias. Teve sede e fome...
E foi assim que ele morreu um dia
Amaldiçoado pelo próprio nome!

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