Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Carlos Arnaud

No pomar onde o vago tempo demora,
Resplende alva flor, perfume em festa;
Seu alento de setembro jamais evapora,
Na brisa que do campo a alma infesta.

Vestida de candor, tão pura, tão bela,
Desperta o sol com seu fulgor discreto;
O orvalho, em silêncio, a beija e zela,
Como amante em um rito mais secreto.

Não canta o verso em vão sua doçura,
Pois nela há mais que aroma: há magia,
Que em árvore escreve-se com ternura.

Flor que não se consome em fantasia,
Mas vive, a cada instante, na estrutura
Do mundo que se curva à sua heresia.

Augusto dos Anjos

Por que choras assim, tristonho lírio,
Se eu sou o orvalho eterno que te chora,
Pra que pendes o cálice que enflora
Teu seio branco do palor do círio?!

Baixa a mim, irmã pálida da Aurora,
Estrela esmaecida do Martírio;
Envolto da tristeza no delírio,
Deixa beijar-te a face que descora!

Fosses antes a rosa purpurina.
E eu beijaria a pétala divina
Da rosa, onde não pousa a desventura.

Ai! que ao menos talvez na vida escassa,
Não chorasses à sombra da desgraça,
Para eu sorrir à sombra da ventura!

Carlos Arnaud

Na rigidez da forma, a dor se encerra,
E o verso se lapida em som preciso;
O mármore do túmulo guarda o aviso
Da vida breve, extinta sobre a terra.

Em Leopoldina, a bruma se desterra,
E a morte cumpre o seu fatal inciso;
A pneumonia impôs-lhe cruel juízo,
E o poeta sucumbiu na fria serra.

Mas resta a obra, firme e refinada,
Resta o tempo, a carne corrompida,
Que ergue-se altiva, clara, imaculada.

Assim, na arte, a dor é convertida:
Augusto, em verso, torna-se alvorada,
E a morte curva-se ante a sua vida. 

Alphonsus de Guimaraens

“A Passiflora, flor da Paixão de Jesus,
Conserva em si, piedosa, os divinos Tormentos:
Tem cores roxas, tons magoados e sangrentos
Das Chagas Santas, onde o sangue é como luz.

Quantas mãos a colhê-la, e quantos seios nus
Vêm, suaves, aninhá-la em queixas e lamentos!
Ao tristonho clarão dos poentes sonolentos,
Sangram dentro da flor os emblemas da Cruz…

Nas noites brancas, quando a lua é toda círios,
O seu cálice é como entristecido altar
Onde se adora a dor dos eternos Martírios…

Dizem que então Jesus, como em tempos de outrora,
Entre as pétalas pousa, inundado de luar…
Ah! Senhor, a minha alma é como a passiflora!” 

Carlos Arnaud

No teu olhar encontro uma luz serena,
Razão primeira, a chama que me guia;
É como o sol que rompe a noite plena,
E faz da sombra um templo de alegria.

Segundo, o dom: tua voz doce e amena,
Que em versos canta a paz e a harmonia;
Seu timbre puro, qual harpa que acena,
Transforma o mundo em lírica poesia.

Terceiro, o amor: teu gesto compassivo,
Que ampara o fraco e ergue o desvalido,
Virtude rara em coração outrora altivo.

Quarto motivo: teu sorriso desprendido.
Quinto: a fé que torna todo sonho vivo,
E em ti resume o meu bem viver sentido. 

Carlos Arnaud

No imenso mundo da minha solidão,
Busquei na arte o brilho que me guia;
Mas só em você achei tal harmonia,
Que deu sentido à minha inspiração.

És chama pura, és a doce perfeição,
És um verso raro em plena melodia;
Na sua voz se oculta toda a poesia,
Na sua mão adormece a minha mão.

Se Deus quis que fosse assim marcada,
Não foi o acaso, foi meu destino e lei:
Na eternidade que já estava traçada.

E, ao contemplar-te, enfim compreendi:
De todas as boas almas que encontrei,
Tinha que ser você, somente você, aqui.

Nilo Bruzzi

Tu que passaste a vida sem roseiras
Que dessem flores para perfumá-la; 
Tu que tiveste sombras agoureiras 
Que emudeceram sempre a tua fala;

Tu que desceste mudo as cordilheiras
De teu sonho - gigante côr de opala;
Que sozinho choraste horas inteiras 
Por entre a pompa, o brilho, a gala...

Toma o meu braço carinhoso e amigo 
E caminhemos com tranquilidade, 
Toma o meu braço e eu morrerei contigo...

Parei diante da sombra triste e esguia...
Era a voz compassiva da Saudade 
Que estas palavras mansas me dizia...

Carvalho Júnior

Há nesse olhar translúcido e magnético
A mágica atração de um precipício;
Bem como no teu rir nervoso, cético,
As argentinas vibrações do vício.

No andar, no gesto mórbido, esplinético,
Tens não sei que de nobre e de patrício,
E um som de voz metálico e frenético,
Como o tinir dos ferros de um suplício.

És o arcanjo funesto do pecado,
E de teu lábio morno, avermelhado,
Como um vampiro lúbrico, infernal,

Sugo o veneno amargo da ironia,
O satânico fel da hipocondria,
Numa volúpia estranha e sensual.    

Nilo Bruzzi

Eu imagino a dor que te crucia!
E é com piedade, com profunda pena,
Que te acarinha a minha mão serena
Que nunca descreveu uma alegria...

Almas há, pobre amiga, frias, de hiena,
Que indiferentes passam nesta via
Dolorosa, sangrenta, e de agonia,
Sem nem olhar a nossa dor terrena...

Esconde um silêncio em teu peito
E na quietude do virgíneo leito
A mágoa que os amores te causaram,

Porque a humana piedade dos humanos
É, talvez, o maior dos desenganos
Que no mundo os perversos espalharam...

Carlos Arnaud

Na abóbada de ébano, tão serena,
Reside um canto oculto, harmonioso;
Do alto desce um sopro mavioso,
De um coro de cristal, voz amena.

Silêncio em luz: a órbita pequena
De cada astro retine um som formoso,
Como harpas num concerto primoroso,
Tecendo o céu em música terrena.

São lábios do infinito que sussurram,
Mistérios de eras vastas que murmuram
No idioma sutil do vivo firmamento.

E a alma, ao escutar tão doce enlevo,
Sente-se grão de pó, embora longevo,
Que vê nas luzes vãs um pensamento.

Carlos Arnaud

Na marquise fria da urbe indiferente,
Jaz o mendigo em sombra desvalida;
Seu corpo exíguo, pálido e decadente,
É como alguém no fim da própria vida.
           
A calçada dura serve-lhe como leito,
E o vento açoita a carne já vencida;
No olhar sem brilho, resta o pleito
De um sopro breve, na última medida.

Faz da cachaça o pão que substancia,
E nas drogas busca seu alívio mental,
Tendo como amigo apenas o seu animal.

E quando a aurora em véus se anuncia,
Que Deus lhe dê vida, sem que a tome,
Do ser moribundo, sem rosto, sem nome. 

João Xavier de Matos

Já lá vão sete lustros, que este monte
Berço me foi: Já da vital jornada
Mais de meia carreira está passada;
E cedo iremos ver outro horizonte:

A mão já treme, já se enruga a fronte,
Já branqueja a cabeça, e com a pesada
Consideração da vida mal gastada,
Vai-se apagando a luz, secando a fonte.

Pouco nos resta, que passar já agora;
E para as derradeiras agonias
De tantos anos, aproveite uma hora.

Esperanças, temores, vãs porfias,
Paixões, desejos, ide-vos embora;
Favor, que me fareis por poucos dias. 

Alceu Wamosy

Pelo teu verso, ó pálido devasso,
Verso tecido à lagrimas e flores,
Vou lendo na tua alma, traço a traço,
O inédito poema das tuas dores.

Nize, tua amante, a do febril regaço,
Por quem viveste a palpitar de amores,
Anda a buscar-te, ali, com o seu abraço
E a delicia dos beijos tentadores...

E tu, mísero Elmano desgraçado.
Passas assim, como uma sombra escura,
Ao clarão do teu verso iluminado...

Vais bêbado de vinho e de desejos,
E na tua alma corrompida, impura,
Vibram estrofes e palpitam beijos!... 

Carlos Arnaud

No véu sutil da aurora que se esvai,
Paira o perfume brando da lembrança.
E o coração, que em sombras sobressai,
Busca no nada rara luz de esperança.

Teu vulto é bruma, é sopro que atrai,
É flor que cresce ao toque da bonança;
E em cada instante, o tempo me trai,
Na dança breve da evanescência mansa.

O Amor, fulgura e some, como o vento,
Que beija o ar a correr num lamento,
Deixando apenas uns rastros de poesia.

E eu, prisioneiro da tua fugaz beleza,
Exalto em versos toda tua delicadeza,
Que vive ou morre na minha heresia.

Carlos Arnaud

No templo azul da eterna arquitetura,
Dois corações, por fado entrelaçados,
Revivem sonhos, afetos já passados,
Num elo além da carne e da ternura.

O olhar se encontra na noite escura:
Silente pacto, em astros consagrados,
Sem voz, sem nome, mas já revelados
Na sua íntima e sublime formosura.

Dois vultos vão, pela orla do infinito,
Erguendo o amor num cárcere bendito,
Discutindo seu destino além da esfera.

Almas gêmeas, por céus legitimadas,
São chamas que renascem, lapidadas,
No senso que a paixão jamais espera.

Alceu Walmosy

Assim te quero amar; quero adorar-te assim,
sempre de joelhos, sempre, ó mármore sagrado;
e que teu corpo ideal não seja, para mim,
mais que um sonho, ou que um jardim fechado.

Em todo amor defeso há um encanto sem fim,
que o faz extreme e leal, lúcido e iluminado:
A mulher que se adora é a Torre de Marfim,
mais alta do que o mal, para além do pecado.

O amor deve viver perpetuado no sonho!
Só desejar é bom: Possuir é renunciar
à ilusão, que nos torna o desejo risonho.

Ter só teu corpo é ter um tesouro maldito;
mas, possuir-te na alma e adorar-te no olhar,
é ter o céu inteiro, é ter todo o infinito!

Ascenso Ferreira
 
"Adeus! Eu voltarei ao sol da primavera!" 
E a tua rósea boca à minha boca unindo 
murmuraste baixinho: "O amor que emo nos impera 
nos permite encarar esta ausência sorrindo". 

"Adeus! Eu voltarei quando o inverno for findo, 
contigo ficará meu coração, espera..." 
E estendendo-se a mão formosa em gesto lindo: 
"Adeus, eu voltarei ao sol da primavera." 

Três vezes, pelo azul, as andorinhas voaram, 
três vezes do arvoredo as folhas se mudaram 
e a estação do lilás mais uma vez impera... 

E, embora não cumprida a jura que fizeste, 
inda soa-me ao ouvido a frase que disseste: 
"Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!".

Mauro Mota

Desesperada solidão. Sozinho 
fico na erma planície desta cama. 
De um corpo ausente a sombra se derrama 
nas alvas dobras do lençol de linho. 

No teu canto deserto eu te adivinho. 
Tua lembrança aviva mais a chama, 
e o solitário amante a amada chama. 
Bem mansamente, bem devagarinho, 

pela amplidão do céu vens vindo leve, 
bem leve e fluida. Do distante espaço 
partem cantos de amor. Chegas, e, em breve, 

deitas no branco leito, e até parece 
que és a réstia da lua, este pedaço 
de luar que pela claraboia desce. 

Carlos Arnaud

Encosta-te em mim, serena e radiante,
Que o mundo é áspero, o tempo tirano;
No meu abraço encontrarás um soberano
Refúgio eterno, firme e deslumbrante.

Teu passo incerto torna-se elegante,
Se meu amparo guia teu maior engano;
E cada dor se apaga em tom leviano,
Quando repousas lânguida, confiante.

Assim, na vida, o fardo se dissolve,
E a sombra cede à luz que nos envolve,
Se em meu peito encontras-te, enfim.

E na eterna paz, que o coração reclama,
Surge em silêncio, como ardente chama,
Quando, em ternura, encostas-te em mim.

Carlos Arnaud

Na sombra em que teu olhar me prende,
Arde em silêncio o fogo que me guia;
E cada instante, em febre que se estende,
É promessa de amor que não se esfria.

Se a tua boca roça o ar, tão perto,
Meu coração se entrega ao convívio;
E o gesto, em chama, torna-se liberto,
Na ânsia de encontrar o teu alívio.

É chama viva, ardente, sem medida,
Que insiste em florescer na minha pele,
E pede o sopro teu, razão da vida.

Assim te espero, amor que me compele,
Pois na entrega total, jamais vencida,
Não haverá rigor de lei que nos cancele.

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