Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

João Xavier de Matos

Já lá vão sete lustros, que este monte
Berço me foi: Já da vital jornada
Mais de meia carreira está passada;
E cedo iremos ver outro horizonte:

A mão já treme, já se enruga a fronte,
Já branqueja a cabeça, e com a pesada
Consideração da vida mal gastada,
Vai-se apagando a luz, secando a fonte.

Pouco nos resta, que passar já agora;
E para as derradeiras agonias
De tantos anos, aproveite uma hora.

Esperanças, temores, vãs porfias,
Paixões, desejos, ide-vos embora;
Favor, que me fareis por poucos dias. 

Alceu Wamosy

Pelo teu verso, ó pálido devasso,
Verso tecido à lagrimas e flores,
Vou lendo na tua alma, traço a traço,
O inédito poema das tuas dores.

Nize, tua amante, a do febril regaço,
Por quem viveste a palpitar de amores,
Anda a buscar-te, ali, com o seu abraço
E a delicia dos beijos tentadores...

E tu, mísero Elmano desgraçado.
Passas assim, como uma sombra escura,
Ao clarão do teu verso iluminado...

Vais bêbado de vinho e de desejos,
E na tua alma corrompida, impura,
Vibram estrofes e palpitam beijos!... 

Carlos Arnaud

No véu sutil da aurora que se esvai,
Paira o perfume brando da lembrança.
E o coração, que em sombras sobressai,
Busca no nada rara luz de esperança.

Teu vulto é bruma, é sopro que atrai,
É flor que cresce ao toque da bonança;
E em cada instante, o tempo me trai,
Na dança breve da evanescência mansa.

O Amor, fulgura e some, como o vento,
Que beija o ar a correr num lamento,
Deixando apenas uns rastros de poesia.

E eu, prisioneiro da tua fugaz beleza,
Exalto em versos toda tua delicadeza,
Que vive ou morre na minha heresia.

Carlos Arnaud

No templo azul da eterna arquitetura,
Dois corações, por fado entrelaçados,
Revivem sonhos, afetos já passados,
Num elo além da carne e da ternura.

O olhar se encontra na noite escura:
Silente pacto, em astros consagrados,
Sem voz, sem nome, mas já revelados
Na sua íntima e sublime formosura.

Dois vultos vão, pela orla do infinito,
Erguendo o amor num cárcere bendito,
Discutindo seu destino além da esfera.

Almas gêmeas, por céus legitimadas,
São chamas que renascem, lapidadas,
No senso que a paixão jamais espera.

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