Raul de Leoni
Almas desoladoramente frias
De uma aridez tristíssima de areia,
Nelas não vingam essas suaves poesias
Que a alma das cousas, ao passar, semeia...
Desesperadoramente estéreis e sombrias,
Onde passam (triste aura que as rodeia!)
Deixam uma atmosfera amarga, cheia
De desencantos e melancolias...
Nessa árida rudeza de rochedo,
Mesmo fazendo o bem, sua mão é pesada,
Sua própria virtude mete medo...
Como são tristes essas vidas sem amor,
Essas sombras que nunca amaram nada,
Essas almas que nunca deram flor...
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Salvador Novo
Escrevo-te outra vez, vou ao correio
beijar o selo, a beira do envelope...
Teus lábios! Meu nariz, choroso, entope.
Vão dias, e a resposta inda não veio.
Teus claros olhos são, quando te leio,
tão nítidos na mente, se a galope
me venha aquela angústia que me dope
nas horas de saudade, meu recreio!
Ao sonho roubo o encanto de rever-te.
Me encanto, na vigília, com sonhar-te,
temendo, no meu íntimo, perder-te.
Teu rosto penso achar em toda parte.
Amor, meu bem, é isso: ausência e flerte,
que mata e ressuscita. É sorte, ou arte.
Alberto de Oliveira
Quanta vez, neste mundo, em rumo escuro e incerto,
O homem vive a tatear na treva em que se cria!
Em torno, tudo é vão, sobre a estrada sombria,
No pavor de esperar a angústia que vem perto!...
Entre as vascas da morte, o peito exangue e aberto,
Desgraçado viajor rebelado ao seu guia,
Desespera, soluça, anseia e balbucia
A suprema oração da dor do seu deserto.
Nessa grande amargura, a alma pobre, entre escombros,
Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros
A grandeza da cruz que ilumina e socorre;
Do mundo é a escuridão, que sepulta a quimera...
E no escuro bulcão só Jesus persevera,
Como a luz imortal do amor que nunca morre.
Luís Guimarães Júnior
Quando ela dorme como dorme a estrela
Nos vapores da tímida alvorada,
E a sua doce fronte extasiada
Mais perfeita que um lírio, e tão singela,
Tão serena, tão lúcida, tão bela
Como dos anjos a cabeça amada,
Repousa na cambraia perfumada,
Eu velo absorto o casto sono dela.
E rogo a Deus, enquanto a estrela brilha,
Deus que protege a planta e a flor obscura
E nos indica do futuro a trilha,
Deus, por quem toda a Criação se humilha,
Que tenha pena dessa criatura,
Desse botão de flor – que é minha filha.