Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Carlos Arnaud

Encosta-te em mim, serena e radiante,
Que o mundo é áspero, o tempo tirano;
No meu abraço encontrarás um soberano
Refúgio eterno, firme e deslumbrante.

Teu passo incerto torna-se elegante,
Se meu amparo guia teu maior engano;
E cada dor se apaga em tom leviano,
Quando repousas lânguida, confiante.

Assim, na vida, o fardo se dissolve,
E a sombra cede à luz que nos envolve,
Se em meu peito encontras-te, enfim.

E na eterna paz, que o coração reclama,
Surge em silêncio, como ardente chama,
Quando, em ternura, encostas-te em mim.

Carlos Arnaud

Na sombra em que teu olhar me prende,
Arde em silêncio o fogo que me guia;
E cada instante, em febre que se estende,
É promessa de amor que não se esfria.

Se a tua boca roça o ar, tão perto,
Meu coração se entrega ao convívio;
E o gesto, em chama, torna-se liberto,
Na ânsia de encontrar o teu alívio.

É chama viva, ardente, sem medida,
Que insiste em florescer na minha pele,
E pede o sopro teu, razão da vida.

Assim te espero, amor que me compele,
Pois na entrega total, jamais vencida,
Não haverá rigor de lei que nos cancele.

Juvenal Antunes

Meu casto e doce amor tão peregrino,
Que não chegaste à glória do pecado,
Serás por mim querido e abençoado,
Porque és um bem suavíssimo e divino.

Escreveste, num dia, o meu destino,
Que é sempre idolatrar-te, ajoelhado,
Apesar de viver desesperado,
Sedento e miserável beduíno.

No deserto da vida, a que me lanço,
És os oásis que eu sei que não alcanço,
Mas te busco, esperança fementida!

E assim como Jacó, sempre a buscar-te,
Lamento apenas que, para alcançar-te,
Seja tão curta a duração da vida. 

Carlos Arnaud

No fio tênue de uma manhã dourada,
A vida surge, esplêndida e ligeira,
Qual flor que nasce, bela e perfumada,
Mas logo tomba à brisa passageira.

No mármore insculpido, a obra inteira
Resiste firme, eterna - e mal suspira;
Mas vem o tempo, com a mão sorrateira,
E apaga o vulto que a arte inspira.

No ocaso, morre a luz mais protetora,
E, ao som dos passos vãos do caminheiro,
Desfaz-se o tempo em névoa sedutora.

Do sonho, resta o pó no travesseiro,
E a glória, outrora altiva e mentora,
Jaz muda ao pé do lenho derradeiro. 

Carlos Arnaud

O pranto dos olhos teus, vaga neblina,
Desce em  silêncio, véus de claridade,
E cada  lágrima, sua tênue suavidade,
É como estrela que ao abismo inclina.

No ar noturno, uma sombra se destina,
E o choro canta em ondas de saudade,
Ecoa em brumas, sonho e eternidade,
Como perfume que no vento se afina.

Ah, dor secreta, desta música velada,
Que em cada gota guarda um universo,
Mistério oculto em pérola encantada.

E o que  era  luto, torna-se disperso:
Na lágrima, a alma, em  luz  sagrada,
Faz-se silêncio, ao  seu  canto imerso.

Guterres Casses

O insucesso no amor - torva loucura!
- Minara-lhe a razão já combalida,
E no silêncio atroz da noite escura
Resolve exterminar a própria vida...

A taça de veneno, em mão segura,
Tomba o corpo no espasmo da partida...
Horas depois, em brasas de tortura,
A alma da jovem clama, arrependida!...

Junto à forma indefesa, enregelada,
Ela, à feição de rosa, jaz pendida
Da haste imóvel e triste a que aferra...

Convertera em abismo a curta estrada!
E, entre abatida e pávida, a suicida
Tarde demais pranteia sobre a terra!... 

Carlos Arnaud

Este monismo atroz que nos consome,
No escarro vil da toga e do direito,
Traz no carbono fétido, o desfeito
Que o arbítrio, faminto, agora come.

A Lei - esse esqueleto sem um nome -
Que apodrece no lodo do seu leito;
E o Legis das sentenças, contrafeito,
Gera a náusea voraz que nos carcome!

Pesa a balança em pratos desiguais:
Para o amigo, o amparo da doutrina;
Para o contrário, os gládios mortais.

Cospe, ó musa, na face desta messalina!
Entre a sentença podre e o ouro a mais,
Nossa Justiça é um Juízo que porcina. 

Carlos Arnaud

Amo-te mui além do verbo e da razão,
No templo vil onde o sentir se esconde;
Mas teu olhar, que a dúvida responde,
Não vê meu lume, nem a minha oração.

Fiz do silêncio toda minha confissão,
E do desejo, vasto rio que não sonde;
Tu és o céu que meu querer não ronde,
Flor que não ouve a voz do coração.

Em cada gesto teu, meu mundo me cala,
E a alma, em febre, implora teu abrigo,
Mas tu segues sem ver a quem te exala.

Sou sombra em luz, sou verso sem amigo,
Amor que vive, embora não se iguala
Ao sonho teu, que me passa sem perigo.

Carlos Arnaud

Na vastidão do céu, fulgura um anjo sincero,
Com asas de alabastro, olhar de alvor sereno;
Seu passo é como o tempo: firme, justo, pleno,
Guardião do meu ser, de um sonho que venero.

Na infância da minha alma, foi luz e esmero,
Sussurrando esperança em tom quase terreno;
Mesmo no abismo, seu gesto ameno - e ameno,
Erguia-me em silêncio, um protetor severo.

Jamais pediu louvor, nem trono, nem coroa;
Mas vive em cada ato, em cada aurora boa,
Como um verso escondido em livro de oração.

Se um dia eu partir, que ele me acompanhe,
Pois sua vida é minha, e sua paz me banhe
Num cântico cheio de luz, além da dimensão.

Carlos Arnaud

No dia em que se ergue a voz serena 
Celebra-se a mulher, força e ternura. 
Amiga mais fiel, que as dores amena, 
E guia os passos com luz e candura.

Mãe que consola o filho e dá sustento, 
Genitora que molda uma vida inteira, 
Seu gesto é chama, sopro, fundamento, 
E sua essência é a dádiva missioneira.

É mais que flor, é uma rocha, é claridade, 
Na história grava o pulso que não cessa, 
E ergue o mundo em sua fé e seriedade.

Neste oito de março, uma voz  confessa: 
Que a mulher é funda raiz da humanidade. 
E nela o tempo encontra a vida pregressa. 

Mauro Mota

É noite erma. Silêncio. Ergo-me do aposento,
que é pequeno demais para conter meu sonho,
sonâmbulo abro a porta, a alameda transponho;
- a lua - Salomé - dança no firmamento!

Ao mundo falo então: “Sou um poeta tristonho,
Minha alma é um bandolim que plange lento…
E você onde está?! Vim buscá-la e acalento
na balada de amor que, há dois anos, componho…”

E o mundo - velho rei - disse baixando o açoite
“A mulher que sonhastes - ai que dores infindas! 
é bonita demais para ornar meu reinado!”

E quando o sol nasceu encontrou-me na noite
a buscar, pelo céu, nas estrelas mais lindas,
dois olhos castanhos deste Amor encantado!…

Júlia Cortines

Mascarada mulher o rabecão trouxera.
Morrera em pleno baile a frágil Colombina
E, no egrégio salão de culto à Medicina,
O professor leciona, em voz veemente e austera:

-"Rapazes, contemplai! É rameira e menina.
Tombou ébria no vicio e com certeza era
Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,
Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina.”.

Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo,
Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,
Afasta, indiferente, as flores de rendilha...

No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,
O mestre cambaleia e chora junto dela...
Encontrara na morta a sua própria filha

Carlos Arnaud

Na rua se arrasta um cortejo grotesco,
Corpos que suam, em dança de euforia;
É festa vendida em tom carnavalesco,
Com o preço imposto na falsa alegria.

O povo se perde no batuque barulhento,
E jura que baila numa transe divinal;
Mas tudo não passa de um tosco invento,
Um circo mambembe, um teatro bacanal.

Prefiro o mistério da noite calada,
O véu das estrelas, o sonho profundo,
À orgia profana, à folia incendiada,

Que prende o olhar num delírio imundo.
Odeio o carnaval, uma festa mascarada,
Que oculta o vazio ao riso do mundo.

Carlos Arnaud
  
Fugimos de um romance exacerbado,
Do drama, do ciúme e da cobrança;
Preferimos a pizza e boa comilança
Ao beijo em clima tenso e forçado.

Não há juras, ou tom mais apaixonado,
Nem planos de casar, nem esperança.
Só memes, risos, jogos - sem balança
Que pese o coração descompassado.

Se amar é tempestade em mar aberto,
A amizade é um boteco mais liberto,
Com papo bom, cerveja boa e gelada.

É melhor ser camarada, porém diserto
Do laço que aperta - e, tão esperto,
Parto sem drama, sem rumo, sem nada.

Alceu Wamosy

Pulcras liriais, bizarramente claras,
Carnes divinas, virginais e puras,
Na ostentação de correções preclaras
E de preclaras pompas e brancuras...

Carnes que sois as sacrossantas aras,
De vagas e de ignotas formosuras...
Ó carnes esquisitas carnes, carnes raras,
De esquisitas e raras contexturas!...

Carnes dadas, sem mancha, em holocausto
Ao amor, e do amor florindo ao fausto,
Virgens da tentação, salvas do vício!

Carnes extraordinárias e perfeitas,
Eleitas para um alto gozo - eleitas
Para o prazer e para o sacrifício!...

Olavo Bilac

Tudo ouvirás, pois que, bondosa e pura
Me ouves agora com o melhor ouvido:
Toda a ansiedade, todo o mal sofrido
Em silêncio, na antiga desventura

Hoje, quero, em teus braços acolhido,
Rever a estrada pavorosa e escura
Onde, ladeando o abismo da loucura,
Andei de pesadelos perseguido.

Olha-a: torce-se toda na infinita
Volta dos sete círculos do inferno…
E nota aquele vulto: as mãos eleva,

Tropeça, cai, soluça, arqueja, grita,
Buscando um coração que foge, e eterno
Ouvindo-o perto palpitar na treva.

Juvenal Antunes

Não mintas! Se algum dia me enganares,
Por capricho ou vaidade feminina,
Ou, de outra forma, ao meu amor faltares,
Por isso, não serás menos divina.

Quantas estão no nicho, sobre altares,
Antes os quais tanta gente o joelho inclina,
Que tiveram amores aos milhares
E que santas o povo denomina!

Teu crente eu sou também! Quero adorar-te
Na superioridade de minha este
Do que só tu na terra és merecedora!

Não mintas, pois, jamais, Laura querida,
Por teu orgulho acima até da vida...
Sê sempre altiva, embora pecadora!

Carlos Arnaud

No ocaso lento que a chama se declina,
E o velho corpo repousa em suma pausa;
Na fronte envelhecida a idade se inclina,
E ergue-se a sombra fria da andropausa.

O tempo, esmero artífice da lei divina,
Talha em silêncio o falo que se escusa;
E a vida, em ciclos, sábia e cristalina,
Revela o fim da antes juventude profusa.

Mas resta ao espírito altivo a grandeza,
Que não se curva à carne já cansada,
E busca em versos sua interior beleza.

Assim, na arte, em que a dor é sublimada,
O homem vence o seu tempo com firmeza,
Na alma rica, sincera, madura e lapidada.

Carlos Arnaud

Sonhar contigo é ter o tempo dos anos,
É ver o mundo inteiro no teu sorriso;
É caminhar por céus tão sobre-humanos
E repousar no mais sutil e puro aviso.

Lá, teus olhos são relógios estranhos,
Marcam as horas em gestos de ternura;
E, mesmo ao longe, em meus assanhos,
Te encontro em cada curva da procura.

Quando nos é breve, o sonho é infinito,
Pois nele o amor busca uma serenidade,
E tudo que é real ele faz parecer mito.

Meu sonho é ter-te além da realidade,
É transformar o instante mais restrito
Em pura esperança da maior intensidade.

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