Arnaldo Nunes
Sessenta anos de esforços, sessenta anos
De sofrimento, de existência incalma,
De tantas decepções e desenganos
Estoicamente recalcados na alma!
Doze lustros de prélios sem a calma
Que vem sempre depois dos grandes danos;
Doze lustros de sonhos, tendo a palma
Triste dos pesadelos cotidianos!
E sobre esta velhice prematura,
Sobre a melancolia e sobre o tédio
Em que tudo se finda sem ventura,
A luz do fogo-fátuo, tíbia e mansa,
Desta grande saudade sem remédio,
A saudade infinita da Esperança...
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Mendes Martins
E vem a primavera. E os prados novamente
Cobriram-se de luz, de flores, de verduras;
Fez-se azul todo o céu, azul e transparente
Como um pálio de gaze aberto nas alturas.
E eu disse assim comigo: "Às minhas desventuras
Aos pesares que eu sofro, e tornam-me descrente,
Vão enfim pôr um termo os beijos e as ternuras
Daquela que eu espero e de quem vivo ausente."
E assentei-me, esperando-a, à beira do caminho...
O cair de uma folha, a música de um ninho
Lembravam-me o seu passo e a sua voz, criança!
E afinal veio o inverno e foi-se a primavera,
E cheio de saudade e sempre à sua espera,
E à força de esperar perdi toda esperança.
Humberto Campos
Bendito o coração que não esquece
A inédita emoção do amor primeiro,
E a quem ela, no instante derradeiro,
Numa benção, de súbito, aparece!
Abençoada seja, em toda prece,
A árvore que, na asperidão do outeiro,
Na áurea colheita do pomar inteiro,
Recorda o fruto da primeira messe!
Bendita seja, e, para o amor, sagrada,
A alma que acorda do primeiro sono
Com os olhos postos na ilusão passada.
E bendita, afinal, a alma sincera,
Que abre na solidão do meu Outono
Meu primeiro botão de Primavera!...
Juvenal Antunes
Só, já acalmada a minha dor, eu penso
No que vos mudareis, gotas ardentes,
Caídas, de olhos falsos e inocentes,
Todas no linho alvíssimo de um lenço...
No mais aterrador, no mais intenso
Da pena, vós sois bálsamos clementes...
Eu, ainda as mais cruéis, as mais pungentes
Mágoas do coração, chorando, venço!
Lagrimas! Vós, que sois tão poderosas,
Que tanto alívio dais ao meu tormento,
E afogais tantas ânsias dolorosas,
Que ireis, depois, compor ou decompor?
E tu, que serás tu neste momento,
Minha primeira lágrima de Amor.
B. Lopes
Paremos juntos na tranquilidade
Deste imortal crepúsculo do Afeto,
Onde há um altar, singelo e branco, ereto
À invocação da Pálida Saudade.
Concentra-se na Dor e a flórea idade
Lê no Passado, o livro predileto,
Que eu vou desfiando, compassivo e quieto,
O rosário da minha mocidade...
Ouve o harmônium litúrgico da Mágoa,
Como um rio de lágrimas correndo,
A gemer e a chorar de frágua em frágua.
Que a Senhora dos Tristes nos bendiga!
Vou desfiando o rosário e vai tu lendo,
Meu pobre lírio, minha doce amiga...