Edgar Mata
Enfermo... e os olhos pálidos descerra
Tão fatigados e tão cismadores,
Que uma visão de sonolências erra
A pressagiar misteriosas dores.
As faces têm esbatidas cores
Do luar de Agosto num país de serra...
Há no sorriso que um lamento encerra
Um poema ignoto de saudade e amores.
Tudo é sereno neste estranho enfermo
E no fulgor do seu olhar tristonho
Sentem-se as velhas nostalgias do Ermo.
Fala... e a palavra é tão solene e mansa
Que penso que anda o derradeiro Sonho
A povoar-lhe as solidões da Esperança.
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Costa e Silva
Não desejes, nem sonhes, alma incauta,
Que a ilusão tem o encanto da sereia,
Que em noites aromais de lua cheia
Seduz e perde, em alto-mar, o nauta.
Feliz daquele que os seus atos pauta
Dentro dos dons da vida que o rodeia,
E acha o leito macio e a mesa lauta
Na indiferença da fortuna alheia.
Feliz de quem, da vida para a morte,
Embora pobre, de pobreza triste,
Se contenta, afinal, com a própria sorte.
Se há ventura no mundo, essa consiste,
Talvez, em suportar, de ânimo forte,
A renúncia de um bem que não existe.
Luís Guimarães Júnior
Era mimosa como um frágil lírio,
Como um terno lilás, como a encantada
Peri do Oriente – a peregrina fada –
Ou como Vênus – o jasmim do Empíreo.
Jamais a névoa de um fugaz martírio
Turbou-lhe a altiva fronte delicada;
Pálida às vezes, sim, dessa magoada
Dessa magoada palidez do círio.
Jogava as armas como um paladino;
Amava as cavalgadas, e o aparato
Do mundo a enchia de um prazer divino.
Da virgem tinha o nítido recato,
A timidez, o enleio purpurino,
Mas... Esse "mas" completa o seu retrato.
Auta de Souza
Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.
Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós… Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minha alma abençoadas.
Quando eu daqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…
Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.