Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Carvalho Júnior

Há nesse olhar translúcido e magnético
A mágica atração de um precipício;
Bem como no teu rir nervoso, cético,
As argentinas vibrações do vício.

No andar, no gesto mórbido, esplinético,
Tens não sei que de nobre e de patrício,
E um som de voz metálico e frenético,
Como o tinir dos ferros de um suplício.

És o arcanjo funesto do pecado,
E de teu lábio morno, avermelhado,
Como um vampiro lúbrico, infernal,

Sugo o veneno amargo da ironia,
O satânico fel da hipocondria,
Numa volúpia estranha e sensual.    

Nilo Bruzzi

Eu imagino a dor que te crucia!
E é com piedade, com profunda pena,
Que te acarinha a minha mão serena
Que nunca descreveu uma alegria...

Almas há, pobre amiga, frias, de hiena,
Que indiferentes passam nesta via
Dolorosa, sangrenta, e de agonia,
Sem nem olhar a nossa dor terrena...

Esconde um silêncio em teu peito
E na quietude do virgíneo leito
A mágoa que os amores te causaram,

Porque a humana piedade dos humanos
É, talvez, o maior dos desenganos
Que no mundo os perversos espalharam...

Carlos Arnaud

Na abóbada de ébano, tão serena,
Reside um canto oculto, harmonioso;
Do alto desce um sopro mavioso,
De um coro de cristal, voz amena.

Silêncio em luz: a órbita pequena
De cada astro retine um som formoso,
Como harpas num concerto primoroso,
Tecendo o céu em música terrena.

São lábios do infinito que sussurram,
Mistérios de eras vastas que murmuram
No idioma sutil do vivo firmamento.

E a alma, ao escutar tão doce enlevo,
Sente-se grão de pó, embora longevo,
Que vê nas luzes vãs um pensamento.

Carlos Arnaud

Na marquise fria da urbe indiferente,
Jaz o mendigo em sombra desvalida;
Seu corpo exíguo, pálido e decadente,
É como alguém no fim da própria vida.
           
A calçada dura serve-lhe como leito,
E o vento açoita a carne já vencida;
No olhar sem brilho, resta o pleito
De um sopro breve, na última medida.

Faz da cachaça o pão que substancia,
E nas drogas busca seu alívio mental,
Tendo como amigo apenas o seu animal.

E quando a aurora em véus se anuncia,
Que Deus lhe dê vida, sem que a tome,
Do ser moribundo, sem rosto, sem nome. 

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