Florbela Espanca
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera…quebra-me o encanto
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Luís Guimarães Júnior
Soam ao longe as trompas vencedoras;
Vibra o hallali na mata gloriosa:
Latem os cães, e a cavalgada airosa
Das elegantes, fortes caçadoras,
Cabelo ao ar, altivas, tentadoras,
Qual de Diana a escolta poderosa,
Persegue a fera, e açula jubilosa
As matilhas cruéis e vingadoras.
No entanto, a castelã, triste e isolada,
À sombra dos frondosos arvoredos,
Pálida, loira, casta e enamorada,
Passeia ouvindo uns matinais segredos,
E, como a Margarida da balada,
Desfolha um malmequer entre os seus dedos.
Augusto dos Anjos
O mar é triste como um cemitério,
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela imácula brancura
De ondas chorando num albor etéreo.
Ah! dessas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!
Quando a cândida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solidão das fragas,
Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma.
Reflete a luz do sol que já não arde,
Treme na treva a púrpura da tarde,
Chora a saudade envolta nesta espuma!
Luís Guimarães Júnior
Meu coração repleto de esplendores
Como as grutas fantásticas do Oriente,
Será digno de ti. Por ti somente
Foi que eu junquei meu coração de flores.
Por ti despi-o das passadas cores,
Por ti sequei a lágrima pungente
Que gotejava como o orvalho ardente,
Silenciosa – sobre as minhas dores.
Entra. Percorre estes vergéis risonhos,
Calca a sorrir a terra emudecida
Onde palpita o mundo dos meus sonhos.
Fica porém atenta e prevenida:
Hás de ouvir, muitas vezes, os medonhos
E surdos ais de uma ilusão perdida.