Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Juvenal Antunes

Meu casto e doce amor tão peregrino,
Que não chegaste à glória do pecado,
Serás por mim querido e abençoado,
Porque és um bem suavíssimo e divino.

Escreveste, num dia, o meu destino,
Que é sempre idolatrar-te, ajoelhado,
Apesar de viver desesperado,
Sedento e miserável beduíno.

No deserto da vida, a que me lanço,
És os oásis que eu sei que não alcanço,
Mas te busco, esperança fementida!

E assim como Jacó, sempre a buscar-te,
Lamento apenas que, para alcançar-te,
Seja tão curta a duração da vida. 

Carlos Arnaud

No fio tênue de uma manhã dourada,
A vida surge, esplêndida e ligeira,
Qual flor que nasce, bela e perfumada,
Mas logo tomba à brisa passageira.

No mármore insculpido, a obra inteira
Resiste firme, eterna - e mal suspira;
Mas vem o tempo, com a mão sorrateira,
E apaga o vulto que a arte inspira.

No ocaso, morre a luz mais protetora,
E, ao som dos passos vãos do caminheiro,
Desfaz-se o tempo em névoa sedutora.

Do sonho, resta o pó no travesseiro,
E a glória, outrora altiva e mentora,
Jaz muda ao pé do lenho derradeiro. 

Carlos Arnaud

O pranto dos olhos teus, vaga neblina,
Desce em  silêncio, véus de claridade,
E cada  lágrima, sua tênue suavidade,
É como estrela que ao abismo inclina.

No ar noturno, uma sombra se destina,
E o choro canta em ondas de saudade,
Ecoa em brumas, sonho e eternidade,
Como perfume que no vento se afina.

Ah, dor secreta, desta música velada,
Que em cada gota guarda um universo,
Mistério oculto em pérola encantada.

E o que  era  luto, torna-se disperso:
Na lágrima, a alma, em  luz  sagrada,
Faz-se silêncio, ao  seu  canto imerso.

Guterres Casses

O insucesso no amor - torva loucura!
- Minara-lhe a razão já combalida,
E no silêncio atroz da noite escura
Resolve exterminar a própria vida...

A taça de veneno, em mão segura,
Tomba o corpo no espasmo da partida...
Horas depois, em brasas de tortura,
A alma da jovem clama, arrependida!...

Junto à forma indefesa, enregelada,
Ela, à feição de rosa, jaz pendida
Da haste imóvel e triste a que aferra...

Convertera em abismo a curta estrada!
E, entre abatida e pávida, a suicida
Tarde demais pranteia sobre a terra!... 

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