Jorge Azevedo
Essas coisas da vida a gente nunca esquece...
Um longo beijo ao luar... uma mentira linda...
Num suspiro de amor... num sussurro de prece,
Guardar de toda boca uma saudade infinda...
E então quando se é moço e o ardor não arrefece,
Goza-se a mocidade enquanto ela não finda...
Da vida bem vivida o ocaso recrudesce
A tristeza de não poder mentir ainda...
E a minha mocidade em beijos se avigora,
Encontra em toda boca uma esplendente aurora
E em todo amor um sol em que febril, se aquece...
E na efemeridade em que ela se resume,
O consolo a lembrar... lembrar... pois ao perfume
Dessas coisas da vida a gente refloresce...
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Mário Pederneiras
Assim... Ambos assim, no mesmo passo,
Iremos percorrendo a mesma estrada;
Tu - no meu braço trêmulo amparada,
Eu - amparado no teu lindo braço.
Ligados neste arrimo, embora escasso,
Venceremos as urzes da jornada.
E tu - te sentirás menos cansada,
E eu - menos sentirei o meu cansaço.
E, assim, ligados pelos bens supremos,
Que para mim o teu carinho trouxe,
Placidamente pela vida iremos,
Calcando mágoas. Afastando espinhos.
Como se a escarpa desta vida fosse
O mais suave de todos os caminhos.
Alceu Wamosy
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
Entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem na nascente da alvorada.
E amanhã quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua,
Hás de levar contigo uma saudade minha...
Francisco Otaviano
Morrer... dormir... não mais! Termina a vida
e com ela terminam nossas dores:
um punhado de terra, algumas flores,
e às vezes uma lágrima fingida!
Sim! Minha morte não será sentida;
não deixo amigos, e nem tive amores,
ou, se os tive, mostraram-se traidores,
algozes vis de uma alma consumida.
Tudo é pobre no mundo. Que me importa
que ele amanhã se esbroe e que desabe,
se a natureza para mim é morta!
É tempo já que o meu exílio acabe...
Vem, pois, ó Morte, ao nada me transporta!
Morrer.., dormir... talvez sonhar... quem sabe?