Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Alceu Wamosy

Pulcras liriais, bizarramente claras,
Carnes divinas, virginais e puras,
Na ostentação de correções preclaras
E de preclaras pompas e brancuras...

Carnes que sois as sacrossantas aras,
De vagas e de ignotas formosuras...
Ó carnes esquisitas carnes, carnes raras,
De esquisitas e raras contexturas!...

Carnes dadas, sem mancha, em holocausto
Ao amor, e do amor florindo ao fausto,
Virgens da tentação, salvas do vício!

Carnes extraordinárias e perfeitas,
Eleitas para um alto gozo - eleitas
Para o prazer e para o sacrifício!...

Olavo Bilac

Tudo ouvirás, pois que, bondosa e pura
Me ouves agora com o melhor ouvido:
Toda a ansiedade, todo o mal sofrido
Em silêncio, na antiga desventura

Hoje, quero, em teus braços acolhido,
Rever a estrada pavorosa e escura
Onde, ladeando o abismo da loucura,
Andei de pesadelos perseguido.

Olha-a: torce-se toda na infinita
Volta dos sete círculos do inferno…
E nota aquele vulto: as mãos eleva,

Tropeça, cai, soluça, arqueja, grita,
Buscando um coração que foge, e eterno
Ouvindo-o perto palpitar na treva.

Juvenal Antunes

Não mintas! Se algum dia me enganares,
Por capricho ou vaidade feminina,
Ou, de outra forma, ao meu amor faltares,
Por isso, não serás menos divina.

Quantas estão no nicho, sobre altares,
Antes os quais tanta gente o joelho inclina,
Que tiveram amores aos milhares
E que santas o povo denomina!

Teu crente eu sou também! Quero adorar-te
Na superioridade de minha este
Do que só tu na terra és merecedora!

Não mintas, pois, jamais, Laura querida,
Por teu orgulho acima até da vida...
Sê sempre altiva, embora pecadora!

Carlos Arnaud

No ocaso lento que a chama se declina,
E o velho corpo repousa em suma pausa;
Na fronte austera a idade se inclina,
E ergue-se a sombra fria da andropausa.

O tempo, esmero artífice da lei divina,
Talha em silêncio o falo que se escusa;
E a vida, em ciclos, sábia e cristalina,
Revela o fim da antes juventude profusa.

Mas resta ao espírito altivo a grandeza,
Que não se curva à carne já cansada,
E busca em versos sua interior beleza.

Assim, na arte, em que a dor é sublimada,
O homem vence o seu tempo com firmeza,
Na alma rica, sincera, madura e lapidada.

Carlos Arnaud

Sonhar contigo é ter o tempo dos anos,
É ver o mundo inteiro no teu sorriso;
É caminhar por céus tão sobre-humanos
E repousar no mais sutil e puro aviso.

Lá, teus olhos são relógios estranhos,
Marcam as horas em gestos de ternura;
E, mesmo ao longe, em meus assanhos,
Te encontro em cada curva da procura.

Quando nos é breve, o sonho é infinito,
Pois nele o amor busca uma serenidade,
E tudo que é real ele faz parecer mito.

Meu sonho é ter-te além da realidade,
É transformar o instante mais restrito
Em pura esperança da maior intensidade.

Mauro Mota

Passos incertos sobre as lajes frias, 
sigo em busca de ti, sigo à procura 
do tumulto da vida de outros dias, 
que foi contigo para a sepultura.

Sinto, na solidão da noite escura, 
de onde estás, não me abandonas: guias, 
e que vais a meu lado, de alma pura 
como, nos tempos que morreram, ias. 

Amo-te mais depois que fostes embora, 
Nas lajes frias meus incertos passos, 
deixas de ser a eterna ausente agora. 

Chegas, transfigurada, dos espaços, 
e eu vou contigo pela vida afora, 
conduzindo a tua alma nos meus braços.

Carlos Arnaud

Na sombra que envolve a terra calma,
Um cântico etéreo em véus se acende,
E a estrela brilha, despertando a alma,
Que à paz divina em júbilo se rende.

O tempo dorme em luz, repousa a palma,
Do céu descende a aurora mais candente,
E o anjo guarda, em silêncio, a alma
Que ao Cristo oferta fé pura e silente.

Na noite santa, o sonho se perfuma
Com sinos leves, místicos, serenos.
E o coração se abre em luz, em suma,

Natal é a festa dos mistérios plenos,
Onde o Divino em carne se consuma,
E que sinta dos céus os seus acenos.

Carlos Arnaud

Na branca neve da montanha agreste,
Ergue o vulto da mais rígida negação;
O Grinch contempla a festa, que veste
De luz e canto em plena comemoração.

Lá na vila do Quem, num júbilo celeste
Ressoa firme em cantarolas e vibração;
E o ser que odeia, sem que o manifeste,
Sente quebrar-se na mais dura solidão.

Mas eis que a chama, do súbito fulgor,
Transborda e rompe o cárcere animal;
E o peito duro se abre ao terno amor.

E o Grinch, livre o mito do ser do mal,
Descobre a fé, descobre que há valor
Na noite santa e encantada de Natal.

Carlos Arnaud

Partiste como a luz que do céu desmaia,
Sem rastro, sem rumor, sem despedida.
Ficou no chão a sombra que se espraia,
Do vulto teu, que foi minha guarida.

Teus olhos, que eram lâmpadas de alfaia,
Apagaram-se na triste névoa da partida.
O tempo - esse escultor que tudo ensaia,
Talhou em mim tua ausência mais doída.

Não clamo aos deuses, nem ao firmamento;
Aceito o fim com amargo discernimento,
Como convém ao verso e à prosa sem paixão.

Angelina, se algum lugar tua alma habita,
Que veja este soneto - e então permita,
Deixar-me viver aqui, nesta doce ilusão.

João Xavier de Matos

Quando nas mãos de amor me vi sujeito,
A razão em mil erros consentindo,
Jurei de nunca mais, em lhe fugindo,
Sujeitar-me a seu bárbaro preceito.

Ora pude escapar-lhe, e ver desfeito
O duro laço, que me andara urdindo,
Até que pouco a pouco fui sentindo
De novas chamas inflamar-se o peito.

Olhando então por mim, achei quebrada
A ligeira promessa, a um brando rogo,
Por minha própria mão sacrificada;

Que juras contra amor, por desafogo,
São votos de tormenta já passada,
Que depois de serena, esquecem logo.

Carlos Arnaud

No véu da mente, o tempo se desfaz,
Como um relógio em bruma silenciosa;
A alma vagueia em campos de lilás,
Sem rumo, sem a lembrança luminosa.

Os nomes caem como as folhas ao chão,
E o rosto amado é sombra que se esconde;
A vida é sonho, desfeito em lenta erosão,
Que o esquecimento, aos poucos, responde.

No olhar perdido, um eco de saudade,
Um gesto vago, um traço de verdade
Que a névoa interna insiste em dissolver.

Não há no peito um lume que nele persista,
Quando a mente insana, aos poucos, resista
Ao amor que, mesmo sem nome, sabe viver.

Carlos Arnaud

No abismo azul da dor, tua alma acesa,
Canta mistério em névoas de esperança,
E o simbolismo, em tua lira, se balança
Como um perfume sublime da tristeza.

Negro cisne, em teu voo há tal leveza
Que o verso se transforma em aliança,
E a luz, que a tua pena ainda lança,
É chama que transcende a natureza.

Teu poema é triste lágrima que sutura,
É música que embriaga e que murmura
Velhos segredos do Infinito e do Além.

E o mundo, em tua angústia, se revela:
Tu foste a negra cor vestida de aquarela,
Foste o tom que o próprio céu contém.

Carlos Arnaud

Angelina, do Éden, num fulgor cristalino,
Em véus de aurora, paira além da matéria.
Seu belo encanto silente, sua paz etérea,
Faz o tempo se curvar ao seu poder divino.

No átrio da alma, o seu olhar peregrino,
Desvenda mistérios da dor mais sombria.
E em cada suspiro, há uma doce harmonia,
Que acalma o espírito e o torna valentino.

Jamais se profana este seu gesto sereno,
Pois traz na presença um brilho tão ameno,
Que até mesmo o caos rende à sua beleza.

Se algum dia eu cair, que ela me sustenha,
Nas asas de fé, que o amor sempre desenha,
Num voo de luz, vencendo minha fraqueza.

Carlos Arnaud

No meu peito pulsa um vago sentimento,
Um frio etéreo, um sopro que se forma,
Qual brisa leve que, sem lei ou norma,
Desliza em mim com um trêmulo lamento.

Não sei se é dor, é gozo, ou movimento
De algo que foge e a alma desinforma,
Um eco preso onde no vazio transforma,
Um grito tão mudo em calmo sofrimento.

É como o mar que murmura meio fanho,
E traz na espuma um segredo estranho,
Um véu que dança em luzes de ilusão.

E sigo, preso a um pulsar que esconde,
Um coração que diz nada mas responde,
Cativo dessa minha estranha sensação.

Guilherme de Almeida

Ó namorados que passais, sonhando,
quando bóia, no céu, a lua cheia!
Que andais traçando corações na areia
e corações nos peitos apagando!

Desperta os ninhos vosso passo… E quando
pelas bocas em flor o amor chilreia,
nem sei se é o vosso beijo que gorjeia,
se são as aves que se estão beijando…

Mais cuidado! Não vá vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem ver!

Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada,
dos que foram amados sem saber!

Carlos Arnaud

No copo escuro, a dor se faz chorume,  
Licor de sombras, névoa que instiga,  
A alma se curva ao trago que resume  
O pranto calado de uma mágoa antiga.

Sinais de angústia brilham no absinto,  
Velha esperança que se desfez no ar,  
E o peito em chamas, já não vê distinto  
Se é sonho ou ruína a lhe acompanhar.

O álcool murmura em doses repetidas,  
Versos de espectros, vozes dissolvidas,  
Enquanto a vida, em silêncio lhe sorrir.

E o mundo gira em espiral de espanto,  
Num rito lento, febril e tão quebranto,  
Que até o tempo hesita em prosseguir.

Alceu Walmosy

Ó calvário do Verso! Ó Gólgota da Rima!
Como eu já trago as mãos e os tristes pés sangrentos,
De te escalar, assim, nesta ânsia que me anima,
Neste ardor que me impele aos grandes sofrimentos...

Esta mágoa, esta dor, nada existe que exprima!
Sinto curvar-me o joelho a todos os momentos!
E quanto falta, Deus, para chegar lá em cima,
Onde o pranto termina e cessam os tormentos...

Mas é preciso! Sim! É preciso que eu carpa,
Que eu soluce, que eu gema e que ensanguente a escarpa,
Para esse fim chegar, onde meus olhos ponho!

Hei de ascender, subir, levando sobre os ombros,
Entre pragas, blasfêmias, gemidos e assombros,
A eterna Cruz pesada e negra do meu Sonho! 

Carlos Arnaud

Olhos de âmbar, misteriosos, serenos,
Que a luz filtram em tom de claridade.
São como espelhos vítreos, tão amenos,
Mas guardam fundos de imensurabilidade.
                                       
Brilham sutis, em traços tão pequenos,
Que a forma vence a própria intensidade.
Não há excessos, nem arroubos plenos,
Só a medida correta da pura verdade.

Não são da terra, são de um céu velado,
Onde o silêncio canta em tom profundo,
E o tempo para, e angustia maravilhado.

Olhos que fazem do quase invisível mundo,
Um templo vivo, um sonho a ser louvado,
Na luz castanha clara que lhe é fecundo.

Carlos Arnaud 

Ergue-se altivo, na luz, um andarilho.
Seu vulto o segue, calmo e companheiro,
Dançando ao vento, qual espectro ligeiro,
Preso à sua essência de brando partilho.

Se o sol declina, ele torna-se exílio,
Estendido escuro, mais forte e inteiro,
O homem avança, mas seu fiel mensageiro
Lhe sussurra mistérios num terno idílio.

Na aurora brilha, discreto e discreto,
Na noite esconde-se, negro e completo,
Mas nunca o deixa, jamais se desfaz.

Assim caminham os dois neste enredo:
O homem, matéria. A sombra, segredo.
Ambos fundidos nesta dúvida mordaz.

Carlos Arnaud

Corpo em flor exalando a madrugada,
Em cada curva, um verso se insinua.
A pele, em luz, se mostra desfolhada,
E a boca é chama que jamais recua.

Teus olhos têm a cor nua da alvorada,
E em teu olhar, a calma se perpetua.
No gesto teu, uma arte é desenhada,
E o tempo, em ti, se dobra e continua.

Primavera dos meus sonhos ardentes,
Tu és perfume, brisa mansa e tentação,
Que em jardim floresce entre poentes.

E mesmo quando a noite diz: “não são”,
Teus beijos vivem - cálidos, latentes -
Na impassibilidade viva do meu coração.

Carlos Arnaud

Na sala quieta, em tarde sem alento,  
Desliza um véu de névoa invisível,  
Um frio estranho, quase imperceptível,  
Caminha suave, feito um pensamento.

Não há razão, figura ou argumento,  
Só o pesar de um tempo imprevisível,  
Um eco mudo e leve, indiscernível,  
Que gela o riso e tolda o fundamento.

Seria um sonho que ficou de lado?  
Ou mesmo o vulto de algo nunca dito,  
Que insiste em vir, embora recusado?

É como o olhar no abismo infinito,  
Ver-se por dentro: imenso, desolado
E ouvir o mundo em um tom inaudito.

Carlos Arnaud

Seu passo é firme, e a graça não disfarça
O porte de uma Deusa em sua doce teia,
A fronte altiva, a voz que nunca anseia,
E os olhos - dois cristais em pura taça.

Nas tranças negras, a luz se faz escassa,
Tecidas como versos de grande epopeia,
São ondas que o silêncio em si enleia,
Cativo ao sopro que o mistério passa.

Não canta o vento em sua etérea dança,
Como o perfume que por ela sempre exala;
Nem mesmo a aurora a iguala em esperança.

Que os deuses, Angelina, calem a prosa rala.
Não há idioma que defina sua bela trança,
Ou um só olhar que nos seus fios se embala.

Carlos Arnaud

No tempo que a razão se faz madura,
E o passo já conhece o chão que pisa,
A vida se revela em sua forma pura,
Como arte que o escritor a eterniza.

Sessenta e seis - idade que me fulgura
Com luz serena, sábia e sem pesquisa;
Não se busca mais o ouro da aventura,
Mas guarda o dom que o tempo suaviza.

O mundo já não é só a chama e vento,
Mas livro aberto em páginas discretas,
Com versos que repousam seu momento.

E eu, que sou do tempo dos estetas,
Celebro em rima o nobre fundamento:
Viver é bom, e os anos me são poetas.

Mauro Mota

Brisa da tarde, mensageira brisa, 
do tempo antigo como se voltasse. 
Brisa do jardim público, na lisa 
pedra do banco, uma legenda nasce. 

Quase criatura pela relva pisa 
flutuante, fina, alígera, fugace, 
entre meus dedos trêmulos desliza, 
sinto o seu beijo póstumo na face.

Brisa da tarde, vens tangida 
pelos cabelos soltos, rápidos 
cabelos esvoaçantes pelos céus azuis. 

Lembro, um dia, a envolveste e foste embora, 
brisa, e da amada tão distante, agora, 
é o cheiro e a imagem que me restituis.

Carlos Arnaud

Na tez do prado, exímia flor viceja,
Seu cálix de ouro ao sol resplandece,
E a brisa mansa, cândida, esmorece
Ante o perfume que em volúpia alveja.

E logo ao lado, austero e vil, rasteja
O espinho agudo, em nua mudez cresce,
Sem cor, sem graça, com sua ira fenece
No chão estéril que em desdém o beija.

Oh, contraste! Que ironia se ensina
Na arte estranha da agreste campina,
Onde a beleza e a dor se fazem laço!

Pois da flor nasce uma grandeza divina,
E do espinho o pranto da fatal ruína,
Tecendo vida em dúbio e ingênuo passo.

Carlos Arnaud

Nos lábios dela, a rima é mel furtivo,
Mas se beijá-la, provo o amargo pranto.
Seu olhar de íris clara e luz de espanto
Fere-me a alma, como aço frio e esquivo.

Doura-lhe o sol a tez, num tom lascivo,
Mas sua voz ressoa como um canto brando,
Pois há em seu peito o ardor pulsando
Que ao meu clamor responde mui reativo.

Minha Bela Angelina, sou mero viajante,
Perdido em órbita, sem brilho e fomento,
A vagar no vácuo, errante e distante.

Se o amor foi pena, traçou meu destino:
Serei eu poeta, e em versos o lamento
Por não ter sido o seu querer libertino.

Carlos Arnaud

Na cidade altiva, onde a noite avança,
o luar recobre a praça e a nua estrada,
brilhando no Prata, pura luz que dança,
tecendo as sombras numa renda alada.

Um sereno espelho nas águas do rio,
reflete o céu num sonho imaculado,
de súbito envolve o campo em desvario,
seu véu de luz em pranto derramado.

E sob a brisa, toda terra se enfeitiça,
nas folhas que murmuram seus enredos,
a lua desliza em sua áurea preguiça,

bordando vales com seus brancos dedos.
Assim, São Domingos guarda em sua liça
o encanto oculto dos astros quedos.

Juvenal Antunes

Para possuir-te, ó bela flor sublime,
Não vacilei ante a perfídia e o dolo,
Para dormir no leito do teu colo,
Loucura cometi, que não se exprime.

Para acalmar esta anciã, que me oprime,
Só nos teus braços sei achar consolo...
Por ti, sem pejo nem temores, rolo
Pela ladeira aspérrima do crime.

Mas, Juvenal, e o teu orgulho de homem?
E as nobres ambições, que nos consomem,
A glória, a inteligência, o bem, o estudo?

Quanto a essas coisas, meu desdém profundo!
Mais nada me interessa neste mundo...
Só tu, querida, para mim, és tudo.

Raimundo Correia

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...

Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.

Guilherme de Almeida

Estas e muitas outras coisas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.

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