Luís Guimarães Júnior
Ao noturno clarão da lâmpada obscura,
A avó, terna, sorri, de pálpebras cerradas,
Enquanto pelo ar voam as gargalhadas
Duma rósea criança, ardente de ventura.
E ela, ao gentil rumor daquela travessura,
Cuida ouvir, como um eco, ao longe, outras risadas:
Mas o seu pensamento cai, de asas quebradas,
Sobre a cruz de uma negra e fria sepultura;
Sufocada de dor, - abaixa a fronte e chora...
O menino a tremer beija-a e, num gesto, a implora:
E a avó, ao deslizar do pranto que a conforta,
Prende nas magras mãos o risonho inocente,
E, como num espelho azul e transparente,
Vê nesse puro olhar sorrir-lhe a filha morta.
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Chove. Lá fora os lampiões escuros
Semelham monjas a morrer... Os ventos,
Desencadeados, vão bater, violentos,
De encontro às torres e de encontro aos muros.
Saio de casa. Os passos mal seguros
Trêmulo movo, mas meus movimentos
Susto, diante do vulto dos conventos,
Negro, ameaçando os séculos futuros!
De São Francisco no plangente bronze
em badaladas compassadas onze
Horas soaram... Surge agora a Lua.
E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos
Enquanto a chuva cai nos cemitérios
E o vento apaga os lampiões da rua!
Vaine Darde
O meu soneto chora nas goteiras
das casas pobres dos confins das ruas
onde a miséria vem pintar olheiras
nos olhos tristes das meninas nuas.
O meu soneto vai fazer sonata
nessas favelas de famintos lotes
onde os meninos vão virando latas,
comendo a fome que alimenta a morte.
Meu canto sangra por não ter sentido
quando a sirene sonoriza o morro
caçando o anjo que se fez bandido.
Então meu verso é um acorde aflito
que fere a lira pra pedir socorro
e sobe ao morro pra morrer num grito.
Úrsula Garcia
Eu quis levá-la ao cemitério, um dia,
Mas em casa disseram: "Tão criança!"
"É tão longe!... É tão triste!..." Eu insistia:
- Não sabe o que é tristeza, ela, e nem cansa!
A manhã é tão linda! O sol radia,
O ar é tão puro, a brisa fresca e mansa...
É um passeio ao campo. Não faria
Mal algum visitar quem lá descansa...
E eu pensava: - É melhor ir caminhando
Com seus pezinhos, rindo, conversando,
Voltar da cor das rosas que levou...
Não foi comigo... Mas lá foi levada
Numa manhã de sol... - muda, gelada,
Lívida, inerte... E nunca mais voltou.