Pe. Antônio Tomás
Cantam-lhe na alma ainda as sedutoras
Finais palavras do inimigo astuto: –
“Se o houveras provado um só minuto,
Deusa, decerto, e não mulher tu foras”.
E desprezando as iras vingadoras
Do céu, estende o braço resoluto
E colhe o belo, rubicundo fruto
De estranho cheiro e formas tentadoras.
Nas mãos o preme e, quando o vai partindo
Se lhe esguicha da polpa sumarenta
O róseo mosto sobre o seio lindo.
E em cada poma fica-lhe estampado
Um vivo timbre dessa cor sangrenta,
Como as insígnias rubras do pecado.
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Cleômenes Campos
Uma casa de palha à beira de uma estrada.
Dentro, um pote, um baú, uma rede e uma esteira,
fora, dando alegria à casa, uma roseira.
Em torno, a solidão: a grande paz sonhada...
O homem acorda cedo ouvindo a passarada:
vai ao campo cantando uma canção brejeira...
fica a embalar o filho a humilde companheira;
em seguida, faz renda ou borda na almofada.
À tardinha, é o regresso. A criança, ao vê-lo grita.
Ela acha que o marido é bom como ninguém.
Ele acha que a mulher é a mulher mais bonita.
Tu não crês na ventura; ela existe, porém:
é nessa casa pobre onde a ventura habita;
se viveres assim, serás feliz também.
Humberto Rodrigues Neto
Do meu amor, meu sonho e tudo mais
te dei quanto quiseste e me pediste,
até a candura dos meus madrigais
que nunca de outro alguém talvez ouviste.
Neles não sei se alguma vez sentiste
a súplica sincera dos meus ais,
e agora vejo, desolado e triste,
que nunca creste que te amei demais!
Se vias em meu amor um contratempo,
não sei por que esperaste tanto tempo
pra me dizeres tal somente agora.
Só te desejo, ao ver meu sonho findo,
que nunca sofras o que estou sentindo
quando outro alguém levar teu sonho embora!
Martins Fontes
Amemos a mulher que não ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa, por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos ao passado.
Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei, outrora, quanto pude,
porém mais deveria ter amado.
Choro. O remorso os nervos me sacode.
e, ao relembrar o mal que então fazia,
meu desespero, inconsolado, explode.
E a causa desta horrível agonia,
é ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado, quanto amar devia.