Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Alceu Walmosy

Assim te quero amar; quero adorar-te assim,
sempre de joelhos, sempre, ó mármore sagrado;
e que teu corpo ideal não seja, para mim,
mais que um sonho, ou que um jardim fechado.

Em todo amor defeso há um encanto sem fim,
que o faz extreme e leal, lúcido e iluminado:
A mulher que se adora é a Torre de Marfim,
mais alta do que o mal, para além do pecado.

O amor deve viver perpetuado no sonho!
Só desejar é bom: Possuir é renunciar
à ilusão, que nos torna o desejo risonho.

Ter só teu corpo é ter um tesouro maldito;
mas, possuir-te na alma e adorar-te no olhar,
é ter o céu inteiro, é ter todo o infinito!

Ascenso Ferreira
 
"Adeus! Eu voltarei ao sol da primavera!" 
E a tua rósea boca à minha boca unindo 
murmuraste baixinho: "O amor que emo nos impera 
nos permite encarar esta ausência sorrindo". 

"Adeus! Eu voltarei quando o inverno for findo, 
contigo ficará meu coração, espera..." 
E estendendo-se a mão formosa em gesto lindo: 
"Adeus, eu voltarei ao sol da primavera." 

Três vezes, pelo azul, as andorinhas voaram, 
três vezes do arvoredo as folhas se mudaram 
e a estação do lilás mais uma vez impera... 

E, embora não cumprida a jura que fizeste, 
inda soa-me ao ouvido a frase que disseste: 
"Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!".

Mauro Mota

Desesperada solidão. Sozinho 
fico na erma planície desta cama. 
De um corpo ausente a sombra se derrama 
nas alvas dobras do lençol de linho. 

No teu canto deserto eu te adivinho. 
Tua lembrança aviva mais a chama, 
e o solitário amante a amada chama. 
Bem mansamente, bem devagarinho, 

pela amplidão do céu vens vindo leve, 
bem leve e fluida. Do distante espaço 
partem cantos de amor. Chegas, e, em breve, 

deitas no branco leito, e até parece 
que és a réstia da lua, este pedaço 
de luar que pela claraboia desce. 

Carlos Arnaud

Encosta-te em mim, serena e radiante,
Que o mundo é áspero, o tempo tirano;
No meu abraço encontrarás um soberano
Refúgio eterno, firme e deslumbrante.

Teu passo incerto torna-se elegante,
Se meu amparo guia teu maior engano;
E cada dor se apaga em tom leviano,
Quando repousas lânguida, confiante.

Assim, na vida, o fardo se dissolve,
E a sombra cede à luz que nos envolve,
Se em meu peito encontras-te, enfim.

E na eterna paz, que o coração reclama,
Surge em silêncio, como ardente chama,
Quando, em ternura, encostas-te em mim.

Carlos Arnaud

Na sombra em que teu olhar me prende,
Arde em silêncio o fogo que me guia;
E cada instante, em febre que se estende,
É promessa de amor que não se esfria.

Se a tua boca roça o ar, tão perto,
Meu coração se entrega ao convívio;
E o gesto, em chama, torna-se liberto,
Na ânsia de encontrar o teu alívio.

É chama viva, ardente, sem medida,
Que insiste em florescer na minha pele,
E pede o sopro teu, razão da vida.

Assim te espero, amor que me compele,
Pois na entrega total, jamais vencida,
Não haverá rigor de lei que nos cancele.

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