Gregório de Matos
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco com os demais, que ser sisudo.
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Luís Vaz de Camões
Alma amiga que à Terra te partiste
Em busca do viver tão descontente,
Que te abençoe Deus eternamente,
E que te faça leve o fado triste.
Bem sei que a evolução do ser consiste
Nas mil reencarnações que o Pai consente,
E que aos Céus voltarás em luz fulgente,
Inda maior que quando aqui subiste;
Mas, se na Terra, um dia, a crua dor
Envolver-te a formosa e gentil alma,
Que te não desespere o duro fado;
Ah! Roga aos Céus com teu imenso amor
Que bem cedo eu te leve a doce calma,
Quão cedo me trouxeste no passado!
Augusto dos Anjos
Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.
No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.
Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.
E entre a mágoa que a máscara eterna apouca
A humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.
Cruz e Sousa
Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário
As almas, em silêncio, contemplando.
Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.
Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.
Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!