Álvares de Azevedo
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flores!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Oscar D'Alva
Quando a sós na existência meditando
Triste, revivo malogrados dias,
Ao recordar mais dores que alegrias,
O coração se sente miserando.
Punge-me na alma fundas agonias
De uma vida passada o bem pregando
Em toda a parte, e apenas encontrando
Insolências, insultos, ironias...
Os gozos são efêmeros fulgores
Que minha alma lembrando hoje revive;
O mais são mágoas, lutos, dissabores...
Então sinto — ao pensar que não gozei —
Saudade de prazeres que não tive,
Esperança de bens que não terei!
José Albano
Mata-me, puro Amor, mas docemente,
Para que eu sinta as dores que sentiste
Naquele dia tenebroso e triste
De suplício implacável e inclemente.
Faze que a dura pena me atormente
E de todo me vença e me conquiste,
Que o peito saudoso não resiste
E o coração cansado já consente.
E como te amei e sempre te amo,
Deixa-me agora padecer contigo
E depois alcançar o eterno ramo.
E, abrindo as asas para o etéreo abrigo,
Divino Amor, escuta que eu te chamo,
Divino Amor, espera que eu te sigo.
Vicente de Carvalho
Enganei-me supondo que, de altiva,
desdenhosa, tu vias sem receio
desabrochar de um simples galanteio
a agreste flor desta paixão tão viva.
Era segredo teu? Adivinhei-o;
hoje sei tudo: alerta, em defensiva
o coração que eu tenho e se me esquiva
treme, treme de susto no teu seio.
Errou quem disse que as paixões são cegas;
vêem... Deixam-se ver... Debalde insistes:
que mais defendes, se tu'alma entregas?
Bem vejo (vejo-o nos teus olhos tristes...)
- que tu, negando o amor que em vão me negas,
mais a ti mesma do que a mim resistes.