Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Carlos Arnaud

Este monismo atroz que nos consome,
No escarro vil da toga e do direito,
Traz no carbono fétido, o desfeito
Que o arbítrio, faminto, agora come.

A Lei - esse esqueleto sem um nome -
Que apodrece no lodo do seu leito;
E o Legis das sentenças, contrafeito,
Gera a náusea voraz que nos carcome!

Pesa a balança em pratos desiguais:
Para o amigo, o amparo da doutrina;
Para o contrário, os gládios mortais.

Cospe, ó musa, na face desta messalina!
Entre a sentença podre e o ouro a mais,
Nossa Justiça é um Juízo que porcina. 

Carlos Arnaud

Amo-te mui além do verbo e da razão,
No templo vil onde o sentir se esconde;
Mas teu olhar, que a dúvida responde,
Não vê meu lume, nem a minha oração.

Fiz do silêncio toda minha confissão,
E do desejo, vasto rio que não sonde;
Tu és o céu que meu querer não ronde,
Flor que não ouve a voz do coração.

Em cada gesto teu, meu mundo me cala,
E a alma, em febre, implora teu abrigo,
Mas tu segues sem ver a quem te exala.

Sou sombra em luz, sou verso sem amigo,
Amor que vive, embora não se iguala
Ao sonho teu, que me passa sem perigo.

Carlos Arnaud

Na vastidão do céu, fulgura um anjo sincero,
Com asas de alabastro, olhar de alvor sereno;
Seu passo é como o tempo: firme, justo, pleno,
Guardião do meu ser, de um sonho que venero.

Na infância da minha alma, foi luz e esmero,
Sussurrando esperança em tom quase terreno;
Mesmo no abismo, seu gesto ameno - e ameno,
Erguia-me em silêncio, um protetor severo.

Jamais pediu louvor, nem trono, nem coroa;
Mas vive em cada ato, em cada aurora boa,
Como um verso escondido em livro de oração.

Se um dia eu partir, que ele me acompanhe,
Pois sua vida é minha, e sua paz me banhe
Num cântico cheio de luz, além da dimensão.

Carlos Arnaud

No dia em que se ergue a voz serena 
Celebra-se a mulher, força e ternura. 
Amiga mais fiel, que as dores amena, 
E guia os passos com luz e candura.

Mãe que consola o filho e dá sustento, 
Genitora que molda uma vida inteira, 
Seu gesto é chama, sopro, fundamento, 
E sua essência é a dádiva missioneira.

É mais que flor, é uma rocha, é claridade, 
Na história grava o pulso que não cessa, 
E ergue o mundo em sua fé e seriedade.

Neste oito de março, uma voz  confessa: 
Que a mulher é funda raiz da humanidade. 
E nela o tempo encontra a vida pregressa. 

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