Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Carlos Arnaud

Na rigidez da forma, a dor se encerra,
E o verso se lapida em som preciso;
O mármore do túmulo guarda o aviso
Da vida breve, extinta sobre a terra.

Em Leopoldina, a bruma se desterra,
E a morte cumpre o seu fatal inciso;
A pneumonia impôs-lhe cruel juízo,
E o poeta sucumbiu na fria serra.

Mas resta a obra, firme e refinada,
Resta o tempo, a carne corrompida,
Que ergue-se altiva, clara, imaculada.

Assim, na arte, a dor é convertida:
Augusto, em verso, torna-se alvorada,
E a morte curva-se ante a sua vida. 

Alphonsus de Guimaraens

“A Passiflora, flor da Paixão de Jesus,
Conserva em si, piedosa, os divinos Tormentos:
Tem cores roxas, tons magoados e sangrentos
Das Chagas Santas, onde o sangue é como luz.

Quantas mãos a colhê-la, e quantos seios nus
Vêm, suaves, aninhá-la em queixas e lamentos!
Ao tristonho clarão dos poentes sonolentos,
Sangram dentro da flor os emblemas da Cruz…

Nas noites brancas, quando a lua é toda círios,
O seu cálice é como entristecido altar
Onde se adora a dor dos eternos Martírios…

Dizem que então Jesus, como em tempos de outrora,
Entre as pétalas pousa, inundado de luar…
Ah! Senhor, a minha alma é como a passiflora!” 

Carlos Arnaud

No teu olhar encontro uma luz serena,
Razão primeira, a chama que me guia;
É como o sol que rompe a noite plena,
E faz da sombra um templo de alegria.

Segundo, o dom: tua voz doce e amena,
Que em versos canta a paz e a harmonia;
Seu timbre puro, qual harpa que acena,
Transforma o mundo em lírica poesia.

Terceiro, o amor: teu gesto compassivo,
Que ampara o fraco e ergue o desvalido,
Virtude rara em coração outrora altivo.

Quarto motivo: teu sorriso desprendido.
Quinto: a fé que torna todo sonho vivo,
E em ti resume o meu bem viver sentido. 

Carlos Arnaud

No imenso mundo da minha solidão,
Busquei na arte o brilho que me guia;
Mas só em você achei tal harmonia,
Que deu sentido à minha inspiração.

És chama pura, és a doce perfeição,
És um verso raro em plena melodia;
Na sua voz se oculta toda a poesia,
Na sua mão adormece a minha mão.

Se Deus quis que fosse assim marcada,
Não foi o acaso, foi meu destino e lei:
Na eternidade que já estava traçada.

E, ao contemplar-te, enfim compreendi:
De todas as boas almas que encontrei,
Tinha que ser você, somente você, aqui.

Nilo Bruzzi

Tu que passaste a vida sem roseiras
Que dessem flores para perfumá-la; 
Tu que tiveste sombras agoureiras 
Que emudeceram sempre a tua fala;

Tu que desceste mudo as cordilheiras
De teu sonho - gigante côr de opala;
Que sozinho choraste horas inteiras 
Por entre a pompa, o brilho, a gala...

Toma o meu braço carinhoso e amigo 
E caminhemos com tranquilidade, 
Toma o meu braço e eu morrerei contigo...

Parei diante da sombra triste e esguia...
Era a voz compassiva da Saudade 
Que estas palavras mansas me dizia...

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