Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Guterres Casses

Jaz, em cama, a gemer, a parturiente,
Nas contorções insólitas da dor,
Sentindo nessa agrura impenitente
A primeira eclosão de seu amor...

Mil desvelos a cercam docemente,
Num crescendo de anseio e de temor,
Porém, ela se estorce de repente
E morre num espasmo aterrador!

E o médico, tateando seus contornos,
Busca a criança aos membros mornos
Da genitora morta e contorcida!...

A Ciência sabe achar, serena, forte,
Dentro da noite tétrica da Morte,
A rútila alvorada de uma Vida!

Juvenal Antunes

Serei teu Tasso, Laura! E, fosses
Embora menos bela que Beatriz,
Eu, recebendo esses teus beijos doces,
Convencia-me, até, que era feliz!

Ora! Eu digo o que muita gente diz:
Adoro-te, sou teu! Esses teus conces
Que, achados, são não de perdiz,
São beijos de vestais, não dos alcances.

Assim, bebendo rum, whisky, cachaça,
O poeta profanava a própria graça
E da mulher, que amava, se esquecia...

Mas, chega Laura, o poeta fica mudo.
Laura, a garrafa olhando e o conteúdo,
Disse: “Poeta, morreu tua poesia?!”

Carlos Arnaud

No pomar onde o vago tempo demora,
Resplende alva flor, perfume em festa;
Seu alento de setembro jamais evapora,
Na brisa que do campo a alma infesta.

Vestida de candor, tão pura, tão bela,
Desperta o sol com seu fulgor discreto;
O orvalho, em silêncio, a beija e zela,
Como amante em um rito mais secreto.

Não canta o verso em vão sua doçura,
Pois nela há mais que aroma: há magia,
Que em árvore escreve-se com ternura.

Flor que não se consome em fantasia,
Mas vive, a cada instante, na estrutura
Do mundo que se curva à sua heresia.

Augusto dos Anjos

Por que choras assim, tristonho lírio,
Se eu sou o orvalho eterno que te chora,
Pra que pendes o cálice que enflora
Teu seio branco do palor do círio?!

Baixa a mim, irmã pálida da Aurora,
Estrela esmaecida do Martírio;
Envolto da tristeza no delírio,
Deixa beijar-te a face que descora!

Fosses antes a rosa purpurina.
E eu beijaria a pétala divina
Da rosa, onde não pousa a desventura.

Ai! que ao menos talvez na vida escassa,
Não chorasses à sombra da desgraça,
Para eu sorrir à sombra da ventura!

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