Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Alphonsus de Guimaraens Às vezes, alta noite, ergo em meio da cama O meu vulto de espectro, a alma em sangue, os cabelos Hirtos, o torvo olh...
Manuel Bandeira
Meu tudo, minha amada e minha amiga,
Eis, compendiada toda num soneto,
A minha profissão seria de fé e afeto,
Que à confissão, aos teus pés, me obriga.
O que na alma guardei de muito antiga
Experiência foi pena e ansiar inquieto.
Gosto pouco do amor ideal objeto
Só, e do amor só carnal não gosto amiga.
O que há melhor no amor é a iluminância.
Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?… Da distância?…
Não te prometo os estos, a alegria,
A assunção… Mas em toda circunstância
Ser-te-ei sincero como a luz do dia.
Cruz e Sousa
Grande amor, amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.
Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.
Cântico de anjos e de arcanjos vagos
Junto às águas sonâmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido...
Selo perpétuo, puro e peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.
Antero de Quental
Para tristezas, para dor nasceste.
Podia a sorte pôr-te o berço estreito
Em algum palácio e ao pé de régio leito,
Em vez deste areal onde cresceste:
Podia abrir-te as flores - com que veste
As ricas e as felizes - nesse peito:
Fazer-te... o que a Fortuna há sempre feito...
Terias sempre a sorte que tiveste!
Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos,
Que não são deste mundo e onde eu leio
Uns mistérios tão tristes e infinitos,
Tua voz rara e esse ar vago e esquecido,
Tudo me diz a mim, e assim o creio,
Que para isto só tinhas nascido!
Carlos Arnaud
Branca morada onde Bela Angelina pousa,
De arrimo, claros muros vão se elevando.
Nos vãos do templo, a paz em si repousa,
Sutil silêncio sempre ao vento entoando.
Esculpidos em mármore carrara, tronos.
Vê-se cúpulas e pisos de alvura e de alvor.
Nas tramas das colunas, erguem-se panos,
Germinam gerânios e rosas no exterior.
No átrio eterno, quando a luz se entrega,
Ouve-se lindas canções em dias imortais,
Enquanto ao seu tempo o destino navega.
E a Bela Angelina, diante os amplos vitrais
Do Novo Lar que escolheu, a vida abnega,
Construindo seus sonhos em tempos reais...
Carlos Arnaud
Na busca incessante por serenidade,
Enquanto o carnaval aqui se estende,
Procuro um refúgio de tranquilidade,
Longe da folia que o sossego ofende.
As alegorias que aos meus olhos ferem,
O funk ignóbil, tanto irrita e maltrata,
São vultos e sons qual jamais preferem,
Meu ser calmo, e a santa paz do Prata.
Ah, mas que sujeitinho chato de veneta,
Que não acha graça nessa festa momesca,
Onde as drogas fluem de forma dantesca?
Carnaval é uma obra nefasta do capeta.
E é por trás das máscaras e fantasias
Que se escondem as vezes vidas vazias.
Cláudio Manuel da Costa
Não se passa, meu bem, na noite, e dia
Uma hora só, que a mísera lembrança
Te não tenha presente na mudança,
Que fez, para meu mal, minha alegria.
Mil imagens que debuxa e fantasia,
Mais me atormenta e mais me cansa...
Pois tão longe estou de uma esperança,
Que alívio pode dar-me esta porfia!
Tirano foi comigo o fado ingrato,
Que crendo, em te roubar, pouca vitória,
Me deixou para sempre o teu retrato:
Eu me alegrara da passada glória,
Se quando me faltou teu doce trato,
Me faltara também dele a memória!
Cruz e Sousa
É a bondade que te faz formosa,
Que a alma te diviniza e transfigura;
É a bondade, a rosa da ternura,
Que te perfuma com perfume de rosa.
Teu ser angelical de luz bondosa
Verte em meu ser a mais sutil doçura,
Uma celeste, límpida frescura,
Um encanto, uma paz maravilhosa.
Eu afronto contigo os vampirismos,
Os corruptos e mórbidos abismos
Que busquem tentar-me no Caminho.
Na suave, na mesma doce claridade,
No consolo, de amor dessa bondade
Bebo a tua alma como etéreo vinho.
Carlos Arnaud
Pelo silêncio da noite, teu nome chamo,
Sob o céu de estrelas, teu olhar brilha,
E em sonhos, nos braços teus, me inflamo.
E a saudade em meu peito, forte fervilha.
As flores que desabrocham na primavera,
São pálidas, toscas ante a tua face calma.
Teu riso, é doce melodia branda e sincera,
Ao som dele, em êxtase, descanso a alma.
Nos teus olhos castanhos encontro o carinho,
Oh, Angelina, teu amor é meu doce caminho,
Um rubor que me queima, numa chama pura.
Assim, na penumbra, eu sigo com meu sonho
Platônico, sincero, e às vezes bem tristonho.
Ao teu lado, minha vida será sempre segura.
Oh, Angelina, teu amor é meu doce caminho,
Um rubor que me queima, numa chama pura.
Assim, na penumbra, eu sigo com meu sonho
Platônico, sincero, e às vezes bem tristonho.
Ao teu lado, minha vida será sempre segura.
Guilherme de Almeida
Ó namorados que passais, sonhando,
quando boia, no céu, a lua cheia!
Que andais traçando corações na areia
e corações nos peitos apagando!
Despertas ninhos vosso passo... Quando
pelas bocas em flor o amor chilreia,
nem sei se é o vosso beijo que gorjeia,
se são as aves que se estão beijando...
Mais cuidado! Não vá vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem ver!
Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada,
dos que foram amados sem saber!
Luís de Góngora
O brilho de metal do teu cabelo
um dia se consome na ferrugem
e os olhos cristalinos, que hoje fulgem,
apagam-se em perpétuo pesadelo.
Tanto viço, não há como contê-lo:
os seios murcham, tudo se resume
numa disforme massa, feito estrume,
no lodo da matéria em desmazelo.
Aproveita o feitio tão formoso
e, juntos, desfrutemos cada gozo
que os deuses não nos neguem nem adiem.
Antes que esse teu corpo, enfim inerme,
converta-se em repasto para o verme,
celebremos Horácio - Carpe diem!
Araújo Figueredo
Dessa tarde recordo a profunda tristeza...
E porque não? Recordo a hora da despedida.
Eu te deixara só, meu sonho de beleza,
Ó meu lírio da serra, ó flor estremecida!
Nessa hora amargurada, a própria natureza
Parecia uma noiva, entre goivos, vestida
Para a morte. Do céu na límpida turquesa
Uma estrela surgiu, a resplender de vida!
Entre abraços, teu peito ao meu peito apertaste.
E eu para o mar parti. Mas de onde então ficaste,
Um rastilho de luz branca me acompanhou...
Seria o teu amor assim transfigurado?
Ou a saudade augural do teu peito magoado?
E onde o meu coração tristíssimo ficou?
Carlos Arnaud
Nos braços da manhã, surge Angelina,
Com olhar sereno, um andar encantado,
No sonho, me envolve, bela e divina,
Num mundo mágico, suavemente airado.
Cabelos pretos como a noite descente,
Sorriso que ilumina, ternura infinita,
Presença que encanta de forma latente,
Cada gesto dela, uma emoção inaudita.
Em jardins floridos juntos amávamos,
Risos, abraços e beijos, trocávamos.
Acordo e percebo quão doce é sonhar.
Vivo cada dia a recordar seus gestos,
No silêncio da noite, sonhos requestos,
E vejo ao amanhecer, a luz do seu olhar.
Alceu Wamosy
Ó fantasma sinistro da desgraça!
Visionário, sonâmbulo, maldito,
Que arrastas pelas sombras do infinito,
A agonia titânica da tua raça!
O teu vulto gigante, quando passa,
Traz no exterior ciclópico do grito,
Toda a fúria sombria do rio Cocyto,
Toda a insânia que as almas despedaça!
Que destino fatal teus passos leva?
Que procuras, vagabundo, alma de treva,
Pela noite dos séculos, a esmo?
De onde vens? Quem tu és? Importa pouco!
Talvez sejas Ahasverus, errante e louco,
Perdido na inconsciência de si mesmo ...
Mauro Mota
Minha alma! Amiga! Vem de tua fronde
a encarnação da dor num grande grito!
Abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!
Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!
E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.
Tua mísera tristeza simboliza o luto!
Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir somente, e não dar fruto!
Carlos Arnaud
Noite de Natal, na paz se veste o mundo,
Sob a luz das estrelas, sonhos reluzentes,
Silêncio sereno, um mistério profundo,
Cânticos divinos, nas vozes resplendentes.
Brilham os olhos, no encanto profundo,
Esperança renasce, em corações ardentes,
Na manjedoura humilde, o amor fecundo,
Cristo, em seu berço, abençoa os presentes.
A mesa está farta, um calor acolhedor,
Abraços apertados, na doce harmonia,
Luz de velas ilumina o amor verdadeiro.
Que esta noite seja de eterno fervor,
A união se fortaleça, mais na alegria,
E que a paz reine no novo ano inteiro.
Carlos Arnaud
O Grinch, do monte, vê o mundo humano,
Noite de Natal, o riso estridente lá ecoa,
Deseja ele roubar, em um golpe insano,
Levando todo brilho, que o Natal entoa.
Da vila do Quem, no vale, ergue o canto,
Corações se aquecem, em união repleta,
E o Grinch, em trevas, traça com espanto,
Um plano de levar embora toda a festa.
Naquela noite fria, o roubo se consuma,
Árvores, luzes, presentes, na bagagem,
Esperança furtada, Natal que se desfaz.
Mas o coração do Grinch, de gelo em suma,
Desperta ao som do amor, e na passagem,
Descobre que Natal é um momento de paz.
Carlos Arnaud
No céu de bruma, Angelina emerge,
Como um sonho etéreo, intocável.
Olhar misterioso, na noite diverge,
Num enigma brando, impenetrável.
Os teus passos ecoam na penumbra,
Sussurros suaves em uma extasia,
Cada gesto teu, mais que vislumbra,
Revela e oculta a própria fantasia.
Bela Angelina, na dúvida do não dito,
És a mulher que desvenda o infinito,
E no teu ser, o mistério é presente.
O perfume de teu corpo é incenso,
E no silêncio, sua voz é fogo imenso,
Que invade e desperta a alma da gente.
Amélia de Oliveira
Não te peço a ventura desejada,
Nem os sonhos que outrora tu me deste,
Nem a santa alegria que puseste
Nessa doce esperança já passada.
O futuro de amor que prometeste
Não te peço! Minha alma angustiada
Já não te pede, de impossível, nada,
Já não te lembra aquilo que esqueceste!
Nesta mágoa sorvida ocultamente,
Nesta saudade atroz que me deixaste,
Nada te peço! Nada! Tão somente
Neste pranto que choro ainda por ti,
Peço-te agora a paz que me roubaste,
Peço-te agora a vida que perdi!
Juvenal Antunes
Encarnação da máxima bondade,
Imagem de candura e de beleza,
Fardou-te a perdulária Natureza
Exemplo de ternura e castidade.
No indizível horror desta saudade,
Em que minha alma se debate, preza,
Fazes da própria mágoa, e de tristeza,
Um misto de tortura e suavidade.
Bendita seja, pois, mulher querida,
Que escreves e dispões de minha sina,
Como causa e razão de minha vida...
Realças na confecção de qualquer verso:
E, sendo assim tão fraca e tão franzina,
És a obra mais perfeita do Universo!
João Ribeiro
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O aureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares,
Onde os deuses pagãos vivem eternamente.
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo,
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
Carlos Arnaud
Na aurora de teu rosto esplendoroso,
Desliza a luz que enche a minha vida.
Teus olhos, estrelas em céu de gozo,
Refletem a mais pura alma, querida.
Nos campos do amor, és flor purpurina,
A musa que inspira a vida deste poeta.
Teu nome em versos leio, Bela Angelina,
E no teu recanto meu coração completa.
Ao som da tua voz, terna e sincera,
Meu ser desperta, rompe, se reitera.
Em ti, amiga, encontro paz e glória.
Ó Bela Angelina, o teu meigo sorriso,
És para mim o mais sonhado paraíso,
E a conquista deste será minha vitória...
Carlos Arnaud
Na névoa tênue de um dia primaveral,
As almas suspiram memórias antigas.
Em sombras quietas de um sonho fatal,
Sussurram histórias e eternas cantigas.
Nos túmulos frios, repousa o passado,
Num silêncio da fé que ecoa mistérios.
Flores desbotadas em solo sagrado,
Guardam segredos de amores etéreos.
A manhã fria, pálida, observa serena,
Lágrimas que fluem como um rio lento,
Em prece à brisa que doce envenena.
Finados, instantes de paz e tormento,
Onde a vida e a morte dançam amena,
Num ciclo eterno de puro sentimento.
Guilherme de Almeida
Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.
Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa,
Não. Quantas vezes ocultei a minha
dor num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!
É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perdê-lo.
Cruz e Sousa
Por uma estrada de astros e perfumes
A Santa Virgem veio ter comigo:
Douravam-lhe o cabelo claros lumes
Do sacrossanto resplendor amigo.
Dos olhos divinais no doce abrigo
Não tinha laivos de paixões e ciúmes:
Domadora do mal e do perigo
Da montanha da Fé galgara os cumes.
Vestida na alva excelsa dos profetas
Falou na ideal resignação de ascetas,
Que a febre dos desejos aquebranta.
No entanto os olhos dela vacilavam,
Pelo mistério, pela dor flutuavam,
Vagos e tristes, apesar de Santa!
Pe. Antônio Tomás
Ao sopro do terral abrindo a vela,
Na esteira azul das águas arrastada,
Segue veloz a intrépida jangada
Entre os uivos do mar que se encapela.
Prudente, o jangadeiro se acautela
Contra os mil acidentes da jornada;
Fazem-lhe, entanto, guerra encarniçada
O vento, a chuva, os raios, a procela.
Súbito, um raio o prostra e, furioso,
Da jangada o despeja na água escura;
E, em brancos véus de espuma, o desditoso.
Envolve e traga a onda intumescida,
Dando-lhe, assim, mortalha e sepultura
O mesmo mar que o pão lhe dera em vida.
Carlos Arnaud
Eis, qual mármore puro e alabastrina,
Tua figura esculpida pela arte,
Que do tempo resiste à fria parte,
E brilha eterna, Bela Angelina.
Em teus cabelos, negro que fascina,
A luz do sol em fios se reparte,
E nos teus olhos, mares a estandarte,
Onde a beleza encontra a sua sina.
Tua face, em linhas firmes, desenhada
Por mãos divinas, obra consagrada,
Revela o culto à forma, ao ideal.
És na pureza a deusa idolatrada,
Imagem viva, sem igual, encantada,
Bela Angelina, uma mulher monumental.
Alberto de Oliveira
Parado o engenho, extintas as senzalas,
Sem mais senhor, existe inda a fazenda,
A envidraçada casa de vivenda
Entregue ao tempo com as desertas salas.
Se ali penetras, vês em cada fenda
Verdear o musgo e ouves, se acaso falas,
Soturnos ecos e o roçar das alas
De atros morcegos em revoada horrenda.
Amam o luar, entretanto, essas ruínas.
Uma noite, horas mortas, de passagem
Eu a varanda olhava, quando vejo
À janela da frente, entre cortinas
De prata e luz, chegar saudosa imagem
E, unindo os dedos, atirar-me um beijo...
Alphonsus de Guimaraens
Vestido de ouro o Sol, bom padre, canta a missa
Da luz no altar do céu. Véus de celestes damas,
As nuvens voam: cantam pássaros: e viça
Mais do que nunca o olhar de Flora pelas ramas.
Entra o Espectro. Com voz soluçante e submissa
Murmuro-lhe: Por que, se és luz, se já não amas,
Atormentar-me assim? Não haverá justiça
Final no inferno, fogo eterno, eternas chamas?
Para que perseguir-me. Anjo tristonho? Espera.
Ou antes de noite vem, quando o remorso chora,
E o luto os olhos fecha à alma da primavera.
Bem te deves lembrar: quando tu me esqueceste,
Brilhava o mesmo sol no mesmo céu de agora...
Bem te deves lembrar: foi um dia como este.
Alphonsus de Guimaraens
Sempre vivi com a morte dentro da alma,
Sempre tacteei nas trevas de um jazigo.
A sombra que me envolve é eterna e calma,
E sigo sem saber quem vai comigo.
O fantasma que o coração me ensalma
Não me ouve mais as orações que digo.
Não existe no solo uma só palma
Pela alameda olímpica que sigo...
Vós que ao meu lado viestes, visionários
Da esperança! ficastes no caminho,
Envolvidos nas dobras dos sudários...
Que seria de mim, se eu não tivesse
O calor subalar do teu carinho,
Ó minha ânsia, ó meu sonho, ó minha prece!
Corrêa de Araujo
De certo dormes, a tão altas horas,
Horas de espectros pela noite escura;
Lá na vila natal, onde tu moras,
Dormes e sonhas, bela criatura!
Sonhos, tangendo as cítaras sonoras,
Para os céus arrebatam-te a alma pura;
Dormes e eu velo, dormes e ignoras
A saudade infernal que me tortura.
Sonhas talvez com querubins alados,
E eu cismo aqui, entregue ao devaneio
Dos sonhadores e dos namorados...
Dormes, envolta em leves claridades,
E eu velo, e o coração me sangra, cheio
Da mais cruel de todas as saudades.
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