Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Cláudio Manuel da Costa

Não se passa, meu bem, na noite, e dia
Uma hora só, que a mísera lembrança
Te não tenha presente na mudança,
Que fez, para meu mal, minha alegria.

Mil imagens que debuxa e fantasia,
Mais me atormenta e mais me cansa...
Pois tão longe estou de uma esperança,
Que alívio pode dar-me esta porfia!

Tirano foi comigo o fado ingrato,
Que crendo, em te roubar, pouca vitória,
Me deixou para sempre o teu retrato:

Eu me alegrara da passada glória,
Se quando me faltou teu doce trato,
Me faltara também dele a memória!

Cruz e Sousa

É a bondade que te faz formosa,
Que a alma te diviniza e transfigura;
É a bondade, a rosa da ternura,
Que te perfuma com perfume de rosa.

Teu ser angelical de luz bondosa
Verte em meu ser a mais sutil doçura,
Uma celeste, límpida frescura,
Um encanto, uma paz maravilhosa.

Eu afronto contigo os vampirismos,
Os corruptos e mórbidos abismos
Que busquem tentar-me no Caminho.

Na suave, na mesma doce claridade,
No consolo, de amor dessa bondade
Bebo a tua alma como etéreo vinho. 

Carlos Arnaud

Pelo silêncio da noite, teu nome chamo, 
Sob o céu de estrelas, teu olhar brilha, 
E em sonhos, nos braços teus, me inflamo. 
E a saudade em meu peito, forte fervilha.

As flores que desabrocham na primavera, 
São pálidas, toscas ante a tua face calma. 
Teu riso, é doce melodia branda e sincera, 
Ao som dele, em êxtase, descanso a alma.

Nos teus olhos castanhos encontro o carinho,
Oh, Angelina, teu amor é meu doce caminho,
Um rubor que me queima, numa chama pura.

Assim, na penumbra, eu sigo com meu sonho
Platônico, sincero, e às vezes bem tristonho.
Ao teu lado, minha vida será sempre segura.

Guilherme de Almeida

Ó namorados que passais, sonhando,
quando boia, no céu, a lua cheia!
Que andais traçando corações na areia
e corações nos peitos apagando!

Despertas ninhos vosso passo... Quando
pelas bocas em flor o amor chilreia,
nem sei se é o vosso beijo que gorjeia,
se são as aves que se estão beijando...

Mais cuidado! Não vá vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem ver!

Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada,
dos que foram amados sem saber!

Luís de Góngora

O brilho de metal do teu cabelo
um dia se consome na ferrugem
e os olhos cristalinos, que hoje fulgem,
apagam-se em perpétuo pesadelo.

Tanto viço, não há como contê-lo:
os seios murcham, tudo se resume
numa disforme massa, feito estrume,
no lodo da matéria em desmazelo.

Aproveita o feitio tão formoso
e, juntos, desfrutemos cada gozo
que os deuses não nos neguem nem adiem.

Antes que esse teu corpo, enfim inerme,
converta-se em repasto para o verme,
celebremos Horácio - Carpe diem!

Araújo Figueredo

Dessa tarde recordo a profunda tristeza...
E porque não? Recordo a hora da despedida.
Eu te deixara só, meu sonho de beleza,
Ó meu lírio da serra, ó flor estremecida!

Nessa hora amargurada, a própria natureza
Parecia uma noiva, entre goivos, vestida
Para a morte. Do céu na límpida turquesa
Uma estrela surgiu, a resplender de vida!

Entre abraços, teu peito ao meu peito apertaste.
E eu para o mar parti. Mas de onde então ficaste,
Um rastilho de luz branca me acompanhou...

Seria o teu amor assim transfigurado?
Ou a saudade augural do teu peito magoado?
E onde o meu coração tristíssimo ficou?

Carlos Arnaud

Nos braços da manhã, surge Angelina, 
Com olhar sereno, um andar encantado, 
No sonho, me envolve, bela e divina, 
Num mundo mágico, suavemente airado.

Cabelos pretos como a noite descente, 
Sorriso que ilumina, ternura infinita, 
Presença que encanta de forma latente, 
Cada gesto dela, uma emoção inaudita.

Em jardins floridos juntos amávamos, 
Risos, abraços e beijos, trocávamos. 
Acordo e percebo quão doce é sonhar.

Vivo cada dia a recordar seus gestos, 
No silêncio da noite, sonhos requestos, 
E vejo ao amanhecer, a luz do seu olhar. 

Alceu Wamosy

Ó fantasma sinistro da desgraça!
Visionário, sonâmbulo, maldito,
Que arrastas pelas sombras do infinito,
A agonia titânica da tua raça!

O teu vulto gigante, quando passa,
Traz no exterior ciclópico do grito,
Toda a fúria sombria do rio Cocyto,
Toda a insânia que as almas despedaça!

Que destino fatal teus passos leva?
Que procuras, vagabundo, alma de treva,
Pela noite dos séculos, a esmo?

De onde vens? Quem tu és? Importa pouco!
Talvez sejas Ahasverus, errante e louco,
Perdido na inconsciência de si mesmo ...

Mauro Mota

Minha alma! Amiga! Vem de tua fronde
a encarnação da dor num grande grito!
Abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!

Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!

E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.

Tua mísera tristeza simboliza o luto!
Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir somente, e não dar fruto!

Carlos Arnaud

Noite de Natal, na paz se veste o mundo,
Sob a luz das estrelas, sonhos reluzentes, 
Silêncio sereno, um mistério profundo, 
Cânticos divinos, nas vozes resplendentes.

Brilham os olhos, no encanto profundo, 
Esperança renasce, em corações ardentes, 
Na manjedoura humilde, o amor fecundo, 
Cristo, em seu berço, abençoa os presentes.

A mesa está farta, um calor acolhedor, 
Abraços apertados, na doce harmonia, 
Luz de velas ilumina o amor verdadeiro.

Que esta noite seja de eterno fervor, 
A união se fortaleça, mais na alegria, 
E que a paz reine no novo ano inteiro.

Carlos Arnaud

O Grinch, do monte, vê o mundo humano, 
Noite de Natal, o riso estridente lá ecoa, 
Deseja ele roubar, em um golpe insano, 
Levando todo brilho, que o Natal entoa.

Da vila do Quem, no vale, ergue o canto, 
Corações se aquecem, em união repleta, 
E o Grinch, em trevas, traça com espanto, 
Um plano de levar embora toda a festa.

Naquela noite fria, o roubo se consuma, 
Árvores, luzes, presentes, na bagagem, 
Esperança furtada, Natal que se desfaz.

Mas o coração do Grinch, de gelo em suma, 
Desperta ao som do amor, e na passagem, 
Descobre que Natal é um momento de paz.

Carlos Arnaud

No céu de bruma, Angelina emerge, 
Como um sonho etéreo, intocável. 
Olhar misterioso, na noite diverge, 
Num enigma brando, impenetrável.

Os teus passos ecoam na penumbra, 
Sussurros suaves em uma extasia, 
Cada gesto teu, mais que vislumbra,
Revela e oculta a própria fantasia.

Bela Angelina, na dúvida do não dito, 
És a mulher que desvenda o infinito, 
E no teu ser, o mistério é presente.

O perfume de teu corpo é incenso, 
E no silêncio, sua voz é fogo imenso,
Que invade e desperta a alma da gente.

Amélia de Oliveira

Não te peço a ventura desejada,
Nem os sonhos que outrora tu me deste,
Nem a santa alegria que puseste
Nessa doce esperança já passada.

O futuro de amor que prometeste
Não te peço! Minha alma angustiada
Já não te pede, de impossível, nada,
Já não te lembra aquilo que esqueceste!

Nesta mágoa sorvida ocultamente,
Nesta saudade atroz que me deixaste,
Nada te peço! Nada! Tão somente

Neste pranto que choro ainda por ti,
Peço-te agora a paz que me roubaste,
Peço-te agora a vida que perdi!

Juvenal Antunes

Encarnação da máxima bondade,
Imagem de candura e de beleza,
Fardou-te a perdulária Natureza
Exemplo de ternura e castidade.

No indizível horror desta saudade,
Em que minha alma se debate, preza,
Fazes da própria mágoa, e de tristeza,
Um misto de tortura e suavidade.

Bendita seja, pois, mulher querida,
Que escreves e dispões de minha sina,
Como causa e razão de minha vida...

Realças na confecção de qualquer verso:
E, sendo assim tão fraca e tão franzina,
És a obra mais perfeita do Universo!

João Ribeiro

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora, 
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca! 
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca, 
Por esse grande espaço onde o Impassível mora. 

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca! 
Longe, acima do mundo, imensidade em fora, 
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora, 
O aureo plaustro do sol nas nuvens solavanca. 

Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente, 
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares, 
Onde os deuses pagãos vivem eternamente. 

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo, 
Passarem, através das brumas seculares, 
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

Carlos Arnaud

Na aurora de teu rosto esplendoroso, 
Desliza a luz que enche a minha vida. 
Teus olhos, estrelas em céu de gozo, 
Refletem a mais pura alma, querida.

Nos campos do amor, és flor purpurina,
A musa que inspira a vida deste poeta. 
Teu nome em versos leio, Bela Angelina, 
E no teu recanto meu coração completa.

Ao som da tua voz, terna e sincera,
Meu ser desperta, rompe, se reitera. 
Em ti, amiga, encontro paz e glória.

Ó Bela Angelina, o teu meigo sorriso, 
És para mim o mais sonhado paraíso, 
E a conquista deste será minha vitória...

Carlos Arnaud

Na névoa tênue de um dia primaveral, 
As almas suspiram memórias antigas. 
Em sombras quietas de um sonho fatal, 
Sussurram histórias e eternas cantigas.

Nos túmulos frios, repousa o passado, 
Num silêncio da fé que ecoa mistérios. 
Flores desbotadas em solo sagrado, 
Guardam segredos de amores etéreos.

A manhã fria, pálida, observa serena, 
Lágrimas que fluem como um rio lento, 
Em prece à brisa que doce envenena.

Finados, instantes de paz e tormento, 
Onde a vida e a morte dançam amena, 
Num ciclo eterno de puro sentimento.

Guilherme de Almeida
 
Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.

Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa,

Não. Quantas vezes ocultei a minha
dor num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!

É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perdê-lo. 

Cruz e Sousa

Por uma estrada de astros e perfumes
A Santa Virgem veio ter comigo:
Douravam-lhe o cabelo claros lumes
Do sacrossanto resplendor amigo.

Dos olhos divinais no doce abrigo
Não tinha laivos de paixões e ciúmes:
Domadora do mal e do perigo
Da montanha da Fé galgara os cumes.

Vestida na alva excelsa dos profetas
Falou na ideal resignação de ascetas,
Que a febre dos desejos aquebranta.

No entanto os olhos dela vacilavam,
Pelo mistério, pela dor flutuavam,
Vagos e tristes, apesar de Santa!

Pe. Antônio Tomás

Ao sopro do terral abrindo a vela,
Na esteira azul das águas arrastada,
Segue veloz a intrépida jangada
Entre os uivos do mar que se encapela.

Prudente, o jangadeiro se acautela
Contra os mil acidentes da jornada;
Fazem-lhe, entanto, guerra encarniçada
O vento, a chuva, os raios, a procela.

Súbito, um raio o prostra e, furioso,
Da jangada o despeja na água escura;
E, em brancos véus de espuma, o desditoso.

Envolve e traga a onda intumescida,
Dando-lhe, assim, mortalha e sepultura
O mesmo mar que o pão lhe dera em vida. 

Carlos Arnaud

Eis, qual mármore puro e alabastrina,
Tua figura esculpida pela arte,
Que do tempo resiste à fria parte,
E brilha eterna, Bela Angelina.

Em teus cabelos, negro que fascina,
A luz do sol em fios se reparte,
E nos teus olhos, mares a estandarte,
Onde a beleza encontra a sua sina.

Tua face, em linhas firmes, desenhada
Por mãos divinas, obra consagrada,
Revela o culto à forma, ao ideal.

És na pureza a deusa idolatrada,
Imagem viva, sem igual, encantada,
Bela Angelina, uma mulher monumental.

Alberto de Oliveira

Parado o engenho, extintas as senzalas,
Sem mais senhor, existe inda a fazenda,
A envidraçada casa de vivenda
Entregue ao tempo com as desertas salas.

Se ali penetras, vês em cada fenda
Verdear o musgo e ouves, se acaso falas,
Soturnos ecos e o roçar das alas
De atros morcegos em revoada horrenda.

Amam o luar, entretanto, essas ruínas.
Uma noite, horas mortas, de passagem
Eu a varanda olhava, quando vejo

À janela da frente, entre cortinas
De prata e luz, chegar saudosa imagem
E, unindo os dedos, atirar-me um beijo...

Alphonsus de Guimaraens

Vestido de ouro o Sol, bom padre, canta a missa
Da luz no altar do céu. Véus de celestes damas,
As nuvens voam: cantam pássaros: e viça
Mais do que nunca o olhar de Flora pelas ramas.

Entra o Espectro. Com voz soluçante e submissa
Murmuro-lhe: Por que, se és luz, se já não amas,
Atormentar-me assim? Não haverá justiça
Final no inferno, fogo eterno, eternas chamas?

Para que perseguir-me. Anjo tristonho? Espera.
Ou antes de noite vem, quando o remorso chora,
E o luto os olhos fecha à alma da primavera.

Bem te deves lembrar: quando tu me esqueceste,
Brilhava o mesmo sol no mesmo céu de agora...
Bem te deves lembrar: foi um dia como este.

Alphonsus de Guimaraens

Sempre vivi com a morte dentro da alma,
Sempre tacteei nas trevas de um jazigo.
A sombra que me envolve é eterna e calma,
E sigo sem saber quem vai comigo.

O fantasma que o coração me ensalma
Não me ouve mais as orações que digo.
Não existe no solo uma só palma
Pela alameda olímpica que sigo...

Vós que ao meu lado viestes, visionários
Da esperança! ficastes no caminho,
Envolvidos nas dobras dos sudários...

Que seria de mim, se eu não tivesse
O calor subalar do teu carinho,
Ó minha ânsia, ó meu sonho, ó minha prece!

Corrêa de Araujo

De certo dormes, a tão altas horas,
Horas de espectros pela noite escura;
Lá na vila natal, onde tu moras,
Dormes e sonhas, bela criatura!

Sonhos, tangendo as cítaras sonoras,
Para os céus arrebatam-te a alma pura;
Dormes e eu velo, dormes e ignoras
A saudade infernal que me tortura.

Sonhas talvez com querubins alados,
E eu cismo aqui, entregue ao devaneio
Dos sonhadores e dos namorados...

Dormes, envolta em leves claridades,
E eu velo, e o coração me sangra, cheio
Da mais cruel de todas as saudades.

Alphonsus de Guimaraens

Quando te fores, branca, de mãos postas,
E me deixares neste vale de pranto,
Deitada assim, como as demais, de costas
Sobre o teu leve esquife de pau-santo:

Quando as rosas dos seios, decompostas,
Vierem causar à própria morte espanto,
E nessas tábuas vis, onde te encostas,
Te for o lodo o derradeiro manto:

Ainda hei de ver as lúcidas violetas
Que floriram no teu olhar incerto,
Por sob as tuas sobrancelhas pretas...

Ai! como Inês tu não serás rainha:
Mas amada hás de ser no céu decerto
Porque na terra nunca foste minha... 

Corrêa de Araújo

Desfila a procissão... Entre fulgores
Dourados, já declina o sol no poente...
No andor, ornado de ouropéis e flores,
Vai a Santa levada triunfalmente...

Vendo a imagem sagrada, indiferente
Da turba, em roda, aos místicos fervores,
Recordo Essa que adoro doidamente,
Essa por quem enlouqueci de amores.

Meus sonhos junto dela, eram dispersos...
Exibo-a pelas ruas, noite e dia,
Num belo andor, aos ombros dos meus versos.

Alto proclamando-lhe a beleza e a graça...
E em vão! É tudo em vão! Ela é mais fria
Que esta Santa de mármore que passa!...

Alphonsus de Guimaraens

Bendita sois entre as mulheres! Puras
Irradiações de salmos encantados
De glória a ti, Senhora, nas alturas,
Por séculos de séculos sagrados.

Vejo, no entanto, as tuas Amarguras...
Senhora, que há de ser dos desgraçados,
Se tu, a mais feliz das criaturas,
Tens olhos em lágrimas banhados?

Feliz, bem sei, pois és quem Deus mais ama...
Donde me vem que a Mãe do Verbo eterno
Me venha a mim? Santa Isabel exclama.

Passa-te na Alma a inspiração sublime:
E dos teus lábios desce o brando e terno
Hino que a glória da tua Alma exprime...

Gonçalves Crespo

Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar nesse convento:
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lágrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-no desmaiar, cair do assento,
Convulso, e torvo sobre a lágea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguém mais disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliófilo comprara
O livro estranho e que, ao abri-lo, achara
Uns dourados cabelos de mulher... 

Alphonsus Guimaraens

Voltas a ser de novo aquilo que tu eras.
A evocadora palidez do teu semblante
Faz-me pensar nas Virgens-Monjas de outras eras,
Quando de nós estava o Céu menos distante.

Na áurea correspondência estelar das esferas
A tua Alma nupcial há de passar triunfante.
O teu olhar reflete, entre vagas quimeras,
O Inferno, o Purgatório e o Paraíso de Dante.

Havia tal palidez ao redor do teu vulto,
Que eu disse ao ver-te aqui, nas terrenas idades:
O teu corpo já esteve entre flores sepulto...

Nesses restos de vida arde um fogo celeste:
Passam no teu olhar as longínquas saudades
Do esquife que deixaste ou do Céu de onde vieste...

Clicky