Quem sou eu
- Carlos Arnaud de Carvalho
- São Domingos do Prata, Minas Gerais
- E nestas lutas vou cumprindo a sorte, até que venha a compassiva morte, levar-me à grande paz da sepultura.
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Gilka Machado
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida: a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor…
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…
Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Nunes Claro
Quem quer que sejas tu, que neste abrigo
Vieste em hora mansa hoje parar.
Feliz! Vens encontrar aqui contigo
Os tesouros que andaste a procurar.
Vens encontrar, sob o silêncio amigo,
A paz do ouvido, e a glória do olhar.
E até, quem sabe? Aquele beijo antigo
que há muito tempo não sabias dar.
Vens encontrar, (é tarde? Não importa),
Um bem que passou à tua porta.
Um grande amor, nem tu soubeste a quem.
E vens, (tanta riqueza em toda a parte),
Vens a ti mesmo, atónito, encontrar-te.
És um poeta, e nunca o viste bem.
Alberto de Oliveira
Austero e frio, entrar no aposento
O médico: - “É preciso o seu cabelo
Cortem.” - Dissera. E eu vi, - nem sei dizê-lo!
Cair-lhe as tranças nesse atroz momento.
Agora mais faminto, mais violento
Crescia o mal. Da morte o escuro selo
Já sobre a fronte lhe notava, e ao vê-lo,
Dor a dor me estalava o pensamento.
O olhar preso no meu, no etéreo fundo
De seu olhar um anjo me acenava,
Como a dizer: - “Já basta deste mundo!”
Com um sorriso no lábio, ela morria...
E o anjo lá estava: em seu olhar, me olhava,
Em sua boca, em seu sorrir, sorria.
Cabral do Nascimento
Vão as águas nostálgicas do rio…
Vão e sobre elas, a correr com elas,
distingo ainda, ao longe, as claras velas
de um ligeiro, fantástico navio.
Lá vai! Aonde? A que país sombrio?
Ou a que praias rútilas e belas
irá tocar, à luz de mil estrelas?
Sabe-lo, ó mar? E tu, luar de estio?
Ninguém sabe, só Deus, mas eu agouro
que, em certo dia azul, azul e ouro,
há de o navio balouçar num porto.
Há de chegar, como ao final de um sonho,
de brancas velas, plácido e risonho
por fora e, dentro, o capitão já morto…
Nunes Claro
Partiste, e a serra idílica do vento,
do mar, das névoas, mais das grandes luas,
manda dizer-te, amor, neste momento,
que ficou triste, com saudades tuas.
E que, no inverno, enquanto o céu cinzento
tremer nos ramos e chorar nas ruas,
vestirá, com teu lindo pensamento,
as pedras pobres e as roseiras nuas.
E diz mais - que em abril, quando aí saias,
penses, ao ver florir perto as olaias,
naqueles que deixaste sem ninguém.
no sol, nas ervas, no luar, na altura.
- Só não te diz, porque é de pedra dura,
que tu penses, um pouco, em mim também!
Alberto de Oliveira
Mortos para sempre!... Branca, inanimada,
Tu cosida à mortalha escura e fria,
Inda no alvor de teu primeiro dia!
Eu - com ver-te tão cedo amortalhada!
Mortos para sempre! Uma hora de alvorada,
Um minuto de céu quem nos diria
Foi nosso amor nessa manhã sombria,
De receosas lágrimas banhadas!
Mortos, mortos pra sempre!... E hás de em teu leito
Tremer, cuidando que da noite, fora,
Chega um fantasma que te aperta ao peito...
E ao peito, ao peito eu, só, no meu jazigo,
Tua alma pura apertarei - se uma hora
Posso na morte adormecer contigo.
Noel de Arriaga
Quando num labirinto andei perdido,
labirinto de sonhos e esperanças,
uma voz segredava-me ao ouvido:
O amor é belo enquanto o não alcanças,
Não tenhas pressa que depressa
cansas do que mais hás de ter apetecido.
Receoso de colher desesperanças,
não tocava no fruto proibido.
Porém quando a distância se faz perto,
tornando certo quanto fora incerto,
e a cingir-te em meus braços me disponho,
quando da realidade me avizinho
e do sonho me afasto eu adivinho
que a realidade excede o próprio sonho!
Alberto de Oliveira
Chove, embrusca-se o tempo, e quando ao frio
Fuzil, trovão, nos côncavos ribombas
Do céu, vejo passar, como num rio
Nadantes monstros, nuvens de éreas trombas.
Só, desta alcova, cárcere sombrio,
Onde entre morte e amor, minha alma, tombas,
Meu ser, meu coração, meus ais lhe envio,
Por céu de bronze solitárias pombas.
Não vê-la, e o tempo ver, que mais redobra
Sombra e noite que envolve a natureza,
Plena de água, de horror, de medo e espanto!
Abro a janela: e a escuridão que sobra
Das coisas, me enche o peito de tristeza,
E, em fina chuva, os olhos meus de pranto.
Olavo Bilac
Nunca entrarei jamais o teu recinto:
Na sedução e no fulgor que exalas,
Ficas vedada, num radiante cinto
De riquezas, de gozos e de galas.
Amo-te, cobiçando-te... E, faminto,
Adivinho o esplendor das tuas salas,
E todo o aroma dos teus parques sinto,
E ouço a música e o sonho em que te embalas.
Eternamente ao meu olhar pompeias,
E olho-te em vão, maravilhosa e bela,
Adarvada de altíssimas ameias.
E à noite, à luz dos astros, a horas mortas,
Rondo-te, e arquejo, e choro, ó cidadela!
Como um bárbaro uivando às tuas portas!
Olavo Bilac
Não me perdi numa ilusão... Perdi-me
Na existência, entre os homens. E encontrei-os,
Vivos, bem vivos! – estes monstros feios,
Cujo peso afrontoso a terra oprime.
Mas há monstros no bem, como no crime:
Outros houve, que em hinos e gorjeios
Talvez viveram e morreram, cheios
De extrema formosura e ardor sublime.
Ah! no dia da cólera tremenda,
Os monstros bons, agora fugitivos
Desta míngua de fé que nos infama,
Ressurgirão no epílogo da lenda:
Os mortos voltarão varrendo os vivos,
E os maus se afogarão na própria lama!
Pe. Antônio Tomás
Amo-Te, oh Cristo, dessa cruz pendente,
Varado o coração de acerbas dores,
Do teu suplício os bárbaros rigores
Sofrendo humilde e resignadamente.
Porque assim te revelas claramente
Deus dos filhos de Eva sofredores,
Apto ouvir os brados e os clamores
Da miseranda e triste humana gente.
Folgo em saber, nas horas de amargura,
Que um Deus de natureza igual à minha
Sofresse a mesma dor que me tortura.
Não quadra um Deus feliz ao desgraçado;
Por isso mesmo aos homens não convinha
Senão somente um Deus crucificado.
Nilo Aparecida Pinto
Que mulher amarei, nesta noite pressaga?
Qual delas me abrirá os seus braços de lua,
E me dará, no amor, o seu corpo de vaga,
Fremindo de pudor, como uma estrela nua?
Qual delas me virá, sob o luar que flutua,
Derramar um perfume e um beijo em minha chaga?
Será minha, e terei uma carícia sua?
Que mulher amarei, nesta noite pressaga?
Em que mundo ela dorme? Em que estância perdida
Gozarei no seu corpo, em maciezas de alfombras,
As carícias da carne e a volúpia da vida?
Ah, não sei que mulher em seus braços me acoite...
Mas estendo-lhe as mãos e a procuro nas sombras,
Como um pássaro cego arrastado na noite...
Alberto de Oliveira
Que me quer esta lágrima?... Chorei-as
Todas... Mas tu, ó lágrima querida,
Tu só ficaste, e vais rolar sem vida,
Longe de suas mãos de finas veias!
Ela também, ó lágrima sentida!
Teve de pranto as pálpebras tão cheias,
Como de um lírio, em meio das areias,
A urna de orvalhos, de manhã perdida.
Mortos para sempre!... Lágrima, secaram
Tuas irmãs! com elas desaparece,
E apaga-te, como elas se apagaram!
Olha: à face que amei se eu te levasse
Num beijo extremo e te espalhado houvesse,
Tu gelaras... tão fria é sua face!
Silva Ramos
Tenho-a presente, como agora, aquela
dura noite da triste despedida;
a aragem levemente arrefecida
da lancha enfuna a desfraldada vela.
Distante, como em fundo de aquarela,
some-se a mansa vila adormecida,
e a branda luz dos astros refletida
no rio, as águas límpidas estrela.
Cena viva que a mente me descreve,
dos amigos em grupos pelo cais
vozes perpassam num sussurro leve;
trocam-se as doces, expressões finais...
E, enquanto os lábios dizem: "até breve",
os corações murmuram: "nunca mais!"
Cruz e Sousa
Cabelos! Quantas sensações ao vê-los!
Cabelos negros, do esplendor sombrio,
Por onde corre o fluido vago e frio
Dos brumosos e longos pesadelos…
Sonhos, mistérios, ansiedades, zelos,
Tudo que lembra as convulsões de um rio
Passa na noite cálida, no estio
Da noite tropical dos teus cabelos.
Passa através dos teus cabelos quentes,
Pela chama dos beijos inclementes,
Das dolências fatais, da nostalgia…
Auréola negra, majestosa, ondeada,
Alma da treva, densa e perfumada,
Lânguida Noite da melancolia!
Guilherme de Almeida
Ela veio bater à minha porta
e falou-me, a sorrir, subindo a escada:
“Bom dia, árvore velha e desfolhada!”
E eu respondi: “Bom dia, filha morta!”
Entrou: e nunca mais me disse nada…
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada…
Então chamou-me e disse: “Vou-me embora!
Sou a Felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz!”
E foi assim que, em plena primavera,
só quando ela partiu, contou quem era…
E nunca mais eu me senti feliz!
Alphonsus de Guimaraens
Ficávamos sonhando horas inteiras,
com os olhos cheios de visões piedosas:
éramos duas virginais palmeiras,
abrindo ao céu as palmas silenciosas.
As nossas almas, brancas, forasteiras,
no éter sublime alavam-se radiosas.
Ao redor de nós dois, quantas roseiras!
O áureo poente coroava-nos de rosas.
Era um harpejo de harpa todo o espaço:
mirava-a longamente, traço a traço,
no seu fulgor de arcanjo proibido.
Surgia a Lua, além, toda de cera…
Ai como suave então me parecera
a voz do amor que eu nunca tinha ouvido!
Olavo Bilac
Depois de tantos anos, frente a frente,
Um encontro... O fantasma do meu sonho!
E, de cabelos brancos, mudamente,
Quedamos frios, num olhar tristonho.
Velhos!... Mas, quando, ansioso, de repente,
Nas sua mãos as minhas palmas ponho,
Ressurge a nossa primavera ardente,
Na terra em bênçãos, sob um sol risonho:
Felizes, num prestígio, estremecemos;
Deliramos, na luz que nos invade
Dos redivivos êxtases supremos;
E fulgimos, volvendo à mocidade,
Aureolados dos beijos que tivemos,
No divino milagre da saudade.
Nilo Aparecida Pinto
Grande é a palavra Companheira!... Quanta
Ternura, quanta, ela exprimir não ousa!
Ao murmura-la eu sinto qualquer cousa
Que me faz crer que essa palavra é Santa!
Repito-as: É a luz que enleva, o som que encanta!
Mais do que Amada, Amante, Irmã, Esposa,
Parece que ao dizê-la, ela me pousa
A música dos anjos, na garganta!...
Por isso mesmo é que, na minha estrada,
Eu vos peço, Senhor, desta maneira:
- Que Aquela que couber-me, na jornada,
Para os acasos de uma vida inteira
Seja - mais do que Esposa, Irmã e Amada,
A que eu possa chamar de Companheira!
Branca de Colaço
Naquela tarde em que nos encontramos
para o último adeus - nas garras frias
do "desgosto sem fim" que sempre achamos
qualquer separação de poucos dias...
Tarde de amor em que nos apartamos.
presas das mais acerbas nostalgias,
talvez porque os protestos que trocamos
valessem mil celestes alegrias,
houve um momento - foi um sonho de Arte!
em que um raio de sol veio beijar-te,
com tanto ardor, em rutilâncias tais,
que eu fiquei muda, a olhar, num gozo infindo,
o beijo que te dava o sol tão lindo...
Mas o teu rosto alumiava mais...
Gonçalves Crespo
Dá para a cerca a estreita e humilde cela
dessa que os seus abandonou, trocando
o calor da família ameno e brando
pelo claustro que o sangue esfria e gela.
Nos florões manuelinos da janela
papeiam aves o seu ninho armando;
vêem-se ao longe os trigos ondulando...
Maio sorri na pradaria bela.
Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
zunem besouros e palpita o ninho.
E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
do seu catre virgíneo sobre o linho
um par de borboletas, amoroso.
Augusto dos Anjos
Canta da torre o trovador saudoso -
Addio, Eleonora! Oh! sonhos meus!
E o canto se desprende harmonioso
Na vibração final do extremo adeus.
Repercute, dolente, mavioso,
Subindo pelo Azul da Inspiração;
Assim canta também meu coração,
Trovador torturado e angustioso.
Ai! não, não acordeis, lembranças minhas!
Saudades de umas noites em que vinhas
Cantar comigo em doce desafio!
Mas, pouco a pouco, os sons esmorecendo,
Perdem-se as notas pelo Azul morrendo,
- Addio, Eleonora, addio, addio!
Creitom Oliveira
Onde estarás agora? Ah, se soubesse
Eu deixaria tudo e seguiria
Na tua direção... não pararia
Até que ao lado teu eu estivesse...
Eu sinto a sua falta... Se eu pudesse
Meu coração do peito arrancaria
Para fazer cessar essa agonia
Dessa incerteza vil que me aborrece!
Pergunto aos Céus o quanto esperarei,
E a Deus por quanto mais suportarei
Essa dor que me fere e me desgasta...
E mais me dói, fere e me desgosta
Pensar que eu possa ouvir como resposta
"A minha graça é tudo que te basta"...
Gregório de Matos
Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.
Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.
Cruz e Sousa
Ó Monja dos estranhos sacrifícios,
Meu amor imortal, Ave de garras
E asas gloriosas, triunfais, bizarras,
Alquebradas ao peso dos cilícios.
Reclusa flor que os mais revéis flagícios
Abalaram com as trágicas fanfarras,
Quando em formas exóticas de jarras
Teu corpo tinha a embriaguez dos vícios.
Para onde foste, ó graça das mulheres,
Graça viçosa dos vergéis de Ceres
Sem que o meu pensamento te persiga?!
Por onde eternamente enclausuraste
Aquela ideal delicadeza de haste,
De esbelta e fina ateniense antiga?!
Augusto dos Anjos
Pelas do claustro salas silenciosas,
De lutulentas, úmidas arcadas,
Na vastidão silente das caladas
Abóbadas sombrias tenebrosas,
Vagueiam tristemente desfiladas
De freiras e de monjas tristurosas,
Que guardam cinzas de ilusões passadas,
Que guardam pétalas de funéreas rosas.
E à noite quando rezam na clausura,
No sigilo das rezas misteriosas,
Nem a sombra mais leve de ventura!
Só as arcadas ogivais desnudas,
E as mesmas monjas sempre tristurosas,
E as mesmas portas impassíveis, mudas!
Nilo Aparecida Pinto
Talvez, por não ser linda, ela trazia
Uma rosa na trança... e, assim, Consuelo,
Apesar de ser feia, me prendia:
Eu namorava a flor do seu cabelo...
Coitada! Ouvindo a sua voz macia,
Mal eu punha em seu rosto o olhar de gelo...
E, em resposta, a julgar que a flor me ouvia,
Somente a flor mostrava o meu desvelo...
Um dia, ela partiu... não era linda...
Mas, de todas que amei, só ela ainda
Vem perturbar a minha vida mansa.
Pois, sinto, ao recordá-la, distraído,
Um murmúrio de pétalas no ouvido
E um perfume de rosa na lembrança!...
Cruz e Sousa
Quando eu partir, que eterna e que infinita
Há de crescer-me a dor de tu ficares;
Quanto pesar e mesmo que pesares,
Que comoção dentro desta alma aflita.
Por nossa vida toda sol, bonita,
Que sentimento, grande como os mares,
Que sombra e luto pelos teus olhares
Onde o carinho mais feliz palpita...
Nesse teu rosto da maior bondade
Quanta saudade mais, que atroz saudade...
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,
Quando eu tiver já de uma vez partido,
Ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!
Alberto de Oliveira
Da flava Ceres falta-te ao cabelo
A cor, que o seu dourava e os trigos doura;
Tens negra a trança e, deverei dizê-lo?
Fica-te assim melhor, não sendo loura.
Crespa, enredada em serpes, tentadora,
Cheiro-a, aspiro-a, febril, e ardendo em zelo;
E ela em meus lábios, qual se a Noite fora,
De volúpia infernal me imprime o selo.
Toco-a, aperto-a, desato-a fio a fio,
Estendo-a nos meus ombros, velo ondeante;
Tomo-lhe as pontas, o teu rosto espio:
E entre os claros da trama escura e bela,
Creio, vendo-te a luz do olhar radiante,
Ver a réstia de fogo de uma estrela.
Aureliano Lessa
Há tormentos sem nome, há desenganos
mais negros do que o horror da sepultura;
dores loucas, e cheias de amargura,
e momentos mais longos do que os anos.
Não são da vida os passageiros danos
que dobram minha fronte; a desventura
eu a desdenho... A minha sorte dura
fadou-me dentro da alma outros tiranos.
As dores da alma, sim; ela somente,
algoz de si, acha um prazer cruento
em torturar-se ao fogo lentamente.
Oh, isto é que é sofrer! Nenhum tormento
vale um gemido só da alma tremente,
nem séculos as dores de um momento!
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