Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Olavo Bilac

Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,
Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,
E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada
De gritos de triunfo e gritos de agonia.

Prende a ideia fugaz; doma a rima bravia,
Trabalha... E a obra, por fim, resplandece acabada:
"Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!
Filha do meu trabalho! ergue-te à luz do dia!

Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
Arranquei-te da vida ao ádito profundo,
Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!

Posso agora morrer, porque vives!" E o Poeta
Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,
E cai - vaidade humana! - ao pé de um grão de areia...

Cruz e Sousa

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas de aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Olavo Bilac

Inda hoje, o livro do passado abrindo,
Lembro-as e punge-me a lembrança delas;
Lembro-as, e vejo-as, como as vi partindo,
Estas cantando, soluçando aquelas.

Umas, de meigo olhar piedoso e lindo,
Sob as rosas de neve das capelas;
Outras, de lábios de coral, sorrindo,
Desnudo o seio, lúbricas e belas…

Todas, formosas como tu, chegaram,
Partiram… e, ao partir, dentro em meu seio
Todo o veneno da paixão deixaram.

Mas, ah! nenhuma teve o teu encanto,
Nem teve olhar como esse olhar, tão cheio
De luz tão viva, que abrasasse tanto.

Luís Vaz de Camões

Quando de minhas mágoas a comprida
Imaginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que para mim foi sonho nesta vida.

Lá numa saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro para ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: não me fujais, sombra benina!
Ela (os olhos em mim com brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser),

Torna a fugir-me; e eu, gritando: dina...
Antes que diga mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

Martins Fontes

Se eu fosse Deus seria a vida um sonho,
nossa existência um júbilo perene!
nenhum pesar que o espírito envenene
empanaria a luz do céu risonho!

Não haveria mais: o adeus solene.
A vingança, a maldade, o ódio medonho,
e o maior mal, que a todos anteponho,
a sede, a fome da cobiça infrene!

Eu exterminaria a enfermidade,
todas as dores da senilidade,
e os pecados mortais seriam dez...

A criação inteira alteraria,
porém, se eu fosse Deus, te deixaria
exatamente a mesma que tu és!

Alceu Wamosy 

Das mulheres que amei, tu foste a mais fingida
E entre todas, talvez, a que mentiu melhor...
Eu fiz do teu amor a essência da minha vida
E o teu braço assassino apunhalou-me o amor.

À cada riso teu, promessa fementida,
Se abria na minha alma uma esperança em flor,
Para depois morrer, para morrer colhida
Com a foice do teu beijo ardente, enganador!

Mas tu, que foste falsa, hás de levar na face
O estigma cruel da legenda imortal,
Que há de te assinalar, onde a tua sombra passe.

E nunca hás de encontrar, errante pelo mundo,
Num peito como o meu, um outro afeto igual,
- Assavero do amor, perpétuo vagabundo!

Emílio de Menezes

Quando, à primeira vez, lhe vi a grandeza,
foi nos tempos da longe meninice.
E quedei-me à mudez de quem sentisse
a alma de pasmos e terrores presa.

Depois, na mocidade, a olhá-lo, disse:
é moço o mar na força e na beleza!
Mas, ao dia apagado e à noite acesa,
hoje o sinto entre as brumas da velhice.

Distanciado de escarpas e barrancos,
vejo-o morrer-me aos pés, calmo, ao abrigo
das grandes fúrias e os hostis arrancos.

E, ao contemplá-lo assim, tristonho digo,
vendo-lhe, à espuma, os meus cabelos brancos:
o velho mar envelheceu comigo!

Guimarães Passos

Sem aos outros mentir, vivi meus dias
desditosos por dias bons tomando,
das pessoas alegres me afastando
e rindo às outras mais do que eu sombrias.

Enganava-me assim, não me enganando;
fiz dos passados males alegrias
do meu presente e das melancolias
sempre gozos futuros fui tirando.

Sem ser amado, fui feliz amante;
imaginei-me bom, culpado sendo;
e, se chorava, ria ao mesmo instante.

E tanto tempo fui assim vivendo,
de enganar-me tornei-me tão constante,
que hoje nem creio no que estou dizendo. 

Félix Arvers

Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
Eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
E aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.

A seu lado serei sempre a sombra esquecida
De um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
Certo de que dei tudo e ele nada me deu.

E ela que Deus formou terna, pura e distante,
Passa sem perceber o murmúrio constante
Do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.

Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
Perguntará, lendo estes versos cheios dela:
“Que mulher será esta?” E não compreenderá.

Vicente de Carvalho

Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.

Têm a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas...

Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.

Hermeto Lima

Essa que passa por aí, senhores,
de olhos castanhos e fidalgo porte,
é a princesa ideal dos meus amores,
a mais franzina pérola do Norte.

Contam que, numa noite de esplendores,
a essa que esmaga o coração mais forte
hinos cantaram e jogaram flores
as estrelas, em mágico transporte.

Acreditais, talvez, ser fantasia!...
Eu vos direi que não... Em certo dia,
quando ela entrou na festival capela,

eu vi a Virgem mergulhada em pranto,
e o Cristo de Marfim fitá-la tanto,
como se fosse apaixonado dela!

Luís Guimarães Júnior

Ias vivendo alegre e descuidosa,
Ó virgem alma! – Um dia aos teus ouvidos
Passar sentiste os mágicos ruídos
Que a voz do beijo espalha vitoriosa.

Essa harmonia ardente e saborosa
Perturbou como um vinho os teus sentidos...
Viste romper uns sóis desconhecidos,
Pobre Vestal! e a fronte ergueste ansiosa.

Vibrou enfim a desejada hora,
Hora do amor cruel e fugitiva,
Em que dobrando a fronte, livre outrora,

Triste, abatida, em lágrimas, cativa,
Tu sofres a delícia aterradora
De estares sepultada e estares viva.

Juvenal Antunes
 
Para os beijos de outrora, não me chamas,
Nem teus braços me chamam como outrora...
Chamo-te em vão! Não vens! Já não me amas...
Amas a outro, talvez que a alma te implora!

Que vale um poeta que se queixa e que chora,
Por quem nem uma lágrima derramas?
E quem se desengana de hora em hora,
Sem decifrar, indecifráveis tramas?

Laura, hoje eu sou um mísero exilado
Que, para alheias terras exportado,
Há de morrer em breve de saudade!

Mas, se a vida no espaço continua,
De lá, do quente sol ou da fria lua,
Eu te amarei com a mesma intensidade!

Augusta Campos

Tenho saudade de umas mãos amigas,
mãos de silêncios doces e eloquentes,
mãos que teciam versos e cantigas
na luz dourada e mística dos poentes.

Resta-me, agora, o peso das fadigas.
E, agora, em minhas mãos sós e frementes,
em vez da ardência das paixões antigas,
sinto horas frias de emoções ausentes.

Mãos amigas, amantes, namoradas,
mãos que embalaram ternas madrugadas
e acalentaram formas e segredos.

Em minhas mãos morreram primaveras.
E eu tenho, agora, inverno e vãs esperas
e saudades chorando nos meus dedos.

Agripino Grieco

Naquele quarto estreito e abandonado,
onde passo, estirado numa rede,
horas de tédio, enquanto o sol despede
as setas de ouro sobre o campo ao lado,

esquecido num canto, e, da parede
junto, entre flores, vasos e um bordado,
há um velho copo de cristal lavrado,
em que, às vezes, aplaco o ardor da sede.

Conta-se que esse copo pertencera,
outrora, a uma esquisita e romanesca
jovem, que nele, muita vez bebera.

E ainda hoje a extravagar cabeça louca!
se ao lábio o levo, sinto na água fresca
o perfume e o sabor daquela boca... 

Alceu Wamosy

Pulcras liriais, bizarramente claras,
Carnes divinas, virginais e puras,
Na ostentação de correções preclaras
E de preclaras pompas e brancuras...

Carnes que sois as sacrossantas aras,
De vagas e de ignotas formosuras...
Ó carnes esquisitas carnes, carnes raras,
De esquisitas e raras contexturas!...

Carnes dadas, sem mancha, em holocausto
Ao amor, e do amor florindo ao fausto,
Virgens da tentação, salvas do vício!

Carnes extraordinárias e perfeitas,
Eleitas para um alto gozo — eleitas
Para o prazer e para o sacrifício!... 

Guterres Casses

Na expiação de falhas milenárias,
Eis-me de novo na matéria inglória!
E, dessas migrações extraordinárias,
Nada guardei nas aras da memória!…

Não sei que culpas ou que faltas várias
Perpetrei nessa antiga trajetória!
Nem que lições cruéis e necessárias
Eu recebi na fase transitória!…

Não lembro o que me deu essa outra vida:
Se foi brilhante e farta em seus prazeres,
Ou foi trevosa e pobre e dolorida!…

Mas sei que volto às multiformas vis,
Pelo Mal que causei aos outros seres,
Pelo Bem que colhi e que não fiz!…

Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!

Antero Bloem

Quando depões sobre o teu Cristo amado,
- Esse Cristo que pende de teu peito,
Ungido de ternura e de respeito -
Um beijo de teu lábio imaculado,

Eu, sacrílego, sinto-me levado
- Ou seja por inveja, ou por despeito -
A arrebatar o Cristo do teu peito
E em teu peito morrer crucificado.

Mas quando vejo, do teu lábio crente,
Cair sobre Jesus a prece ardente,
Talvez por nosso amor, talvez por mim,

Ardo na chama intensa dos desejos
De, arrependido, sufocar meus beijos
Nesse teu alvo Cristo de Marfim. 

Augusto dos Anjos

Das trombetas proféticas o alarde
Falou-lhe, por seus onze augúrios certos:
“É maldito o teu nome! E aos céus abertos,
Não há divina proteção que o guarde!”

Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos
E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E, à tarde,
Saiu aos tombos, como um cão covarde,
A percorrer desertos e desertos...

E, assombrado, com medo do Infinito,
Por toda a parte, onde, aos tropeços, ia,
Por toda a parte viu seu nome escrito!

Vieram-lhe as ânsias. Teve sede e fome...
E foi assim que ele morreu um dia
Amaldiçoado pelo próprio nome!

Luís Guimarães Júnior

Quando Satã, o Arcanjo fulminado,
Pelas divinas mãos, a criatura
Obra de Deus - encarcerar procura
Entre as brônzeas muralhas do Pecado,

Explora o mundo inteiro disfarçado:
É o Ódio, a Guerra, é a Avareza impura,
A Luxúria venal, a torva e escura
Vingança... E sempre, sempre transformado,

A raça humana, estólida e ignorante,
Lança aos martírios dum cruel tormento
Mais pavoroso que as visões do Dante.

Ah! quando chega a minha vez intento
Salvar-me - Em vão! - O infame nesse instante
É mais atroz ainda: - é o Pensamento.

Luís Edmundo

Nesta vida de ásperos caminhos,
A Ventura, querida, é como a rosa:
Nasce cercada de cruéis espinhos.
E é por isso que a vida é tormentosa.

Punhais agudos, ríspidos, daninhos,
Servem de escudo à nossa mão nervosa.
Ventura, tu que embriagas como os vinhos,
Por que és, assim, tal falsa e caprichosa?

Meu amor, tu que a buscas, tem cuidado;
Que o teu gesto não seja desastrado
A erguer, assim, a tua mão formosa.

Não imaginas como sofreria,
Se te visse chorar, descrente, um dia!
A Ventura, querida, é como rosa...   

Castro Alves

Se houvesse ainda talismã bendito
que desse ao pântano - a corrente pura,
musgo - ao rochedo, festa - à sepultura,
das águias negras - harmonia ao grito...

Se alguém pudesse ao infeliz precito
dar lugar no banquete da ventura...
E trocar-lhe o velar da insônia escura
no poema dos beijos - infinito...

Certo... serias tu, donzela casta,
quem me tomasse em meio do Calvário
a cruz de angústia que o meu ser arrasta!...

Mas se tudo recusa-me o fadário,
na hora de expirar, ó Dulce, basta
morrer beijando a cruz de teu rosário!...

Luís Delfino

Quando a primeira lágrima, caindo,
pisou a face da mulher primeira,
o rosto dela assim ficou tão lindo
e Adão beijou-a de uma tal maneira,

que anjos e tronos, pelo espaço infindo,
- como uma catadupa prisioneira -
as seis asas de luz e de ouro abrindo,
rolaram numa esplêndida carreira...

Alguns, pousando à próxima montanha,
queriam ver de perto os condenados
 de dor transidos, na agonia estranha...

E, ante o fulgor dos beijos redobrados,
todos pediam punição tamanha,
ansiosos, mudos, trêmulos, pasmados... 

Virgínia Vitorino

Antes eu resistisse; antes não fosse
Tão longe a exaltação do meu desejo!
Quis um amor sincero, calmo e doce;
Tive-o tão perto e tão distante o vejo!

Passa agora por mim como um cortejo
De sombras e saudades… Apagou-se
A nota musical do último beijo…
– E aquele amor só dúvidas me trouxe!

Foste. Não voltarás. No entanto, calma,
Se penso em ti, descubro na minh´alma
Que já não te pertenço nem te quero.

Não voltas. Sem um grito, sem barulho,
Vou sufocando em lágrimas o orgulho
E embora saiba que não vens… espero!

Augusto dos Anjos

Para o vale noital da eterna gaza
Rolou o Sol - imenso moribundo -
E a noite veio na negrura de uma asa,
Santificada pela Dor do Mundo!

Uma luz, entanto, no negror me abrasa,
E um canto vai morrer no vale fundo...
Que luz é esta que das brumas vasa,
Que canto é este, virginal, profundo?!

Rumores santos... e no santo arpejo, 
Somente tristes os teus olhos vejo,
Para o Infinito e para o Céu voltados!

Cantas, e é noite de fatais abrolhos...
Choras, e no meu peito estes teus olhos
Como que cravam dois punhais gelados! 

Augusto dos Anjos

Vamos, querida! Já é Ave-Maria
- A hora dos tristes e dos descontentes.
Desfaz-se o peito em vibrações dormentes
E o Fado geme sob a névoa fria!

Que eu sinta n’alma o que tu n’alma sentes!
Nesta Missa de Atroz Melancolia
Bebes chorando o Vinho da Agonia
- Consagração das almas padecentes!

Foi numa tarde assim que nos amamos.
Silfos morriam... No ar, os gaturamos
Num recesso de névoa, adormecida...

Punge-me o peito da Saudade o cardo
Enquanto um mocho, sonolento e tardo,
Canta no espaço a maldição da Vida! 

Olavo Bilac

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!

Não me fales das lágrimas perdidas,
Não me fales dos beijos dissipados!
Há numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? que importa,

Se inda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!

Carvalho Júnior

Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
beleza de missal que o romantismo
hidrófobo apregoa em peças góticas,
escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
raquíticos abortos de lirismo,
sonhos de carne, compleições exóticas,
desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
da fina transparência dos cristais,
almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
as belezas da forma, seus adornos,
a saúde, a matéria, a vida enfim.

Filinto de Almeida

A velhice é cansaço... E esse cansaço
não nos vem de trabalho ou movimento...
O que ora faço é demorado e lento
e acho malfeito o pouco que ainda faço.

Tudo me cansa: até o pensamento!
Já pouquíssimo ando e arrasto o passo...
quase sempre dorminte ou sonolento,
vivo uma triste vida de madraço.

Nunca fui mandrião nem calaceiro,
nem também muito ativo, é bem que o diga,
mas domei sempre a inércia, sobranceiro.

Agora, a própria inércia me castiga,
pois se acaso repouso um dia inteiro
esse mesmo repouso me fatiga!

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