Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Mauro Mota

É noite erma. Silêncio. Ergo-me do aposento,
que é pequeno demais para conter meu sonho,
sonâmbulo abro a porta, a alameda transponho;
- a lua - Salomé - dança no firmamento!

Ao mundo falo então: “Sou um poeta tristonho,
Minha alma é um bandolim que plange lento…
E você onde está?! Vim buscá-la e acalento
na balada de amor que, há dois anos, componho…”

E o mundo - velho rei - disse baixando o açoite
“A mulher que sonhastes - ai que dores infindas! 
é bonita demais para ornar meu reinado!”

E quando o sol nasceu encontrou-me na noite
a buscar, pelo céu, nas estrelas mais lindas,
dois olhos castanhos deste Amor encantado!…

Júlia Cortines

Mascarada mulher o rabecão trouxera.
Morrera em pleno baile a frágil Colombina
E, no egrégio salão de culto à Medicina,
O professor leciona, em voz veemente e austera:

-"Rapazes, contemplai! É rameira e menina.
Tombou ébria no vicio e com certeza era
Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,
Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina.”.

Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo,
Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,
Afasta, indiferente, as flores de rendilha...

No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,
O mestre cambaleia e chora junto dela...
Encontrara na morta a sua própria filha

Carlos Arnaud

Na rua se arrasta um cortejo grotesco,
Corpos que suam, em dança de euforia;
É festa vendida em tom carnavalesco,
Com o preço imposto na falsa alegria.

O povo se perde no batuque barulhento,
E jura que baila numa transe divinal;
Mas tudo não passa de um tosco invento,
Um circo mambembe, um teatro bacanal.

Prefiro o mistério da noite calada,
O véu das estrelas, o sonho profundo,
À orgia profana, à folia incendiada,

Que prende o olhar num delírio imundo.
Odeio o carnaval, uma festa mascarada,
Que oculta o vazio ao riso do mundo.

Carlos Arnaud
  
Fugimos de um romance exacerbado,
Do drama, do ciúme e da cobrança;
Preferimos a pizza e boa comilança
Ao beijo em clima tenso e forçado.

Não há juras, ou tom mais apaixonado,
Nem planos de casar, nem esperança.
Só memes, risos, jogos - sem balança
Que pese o coração descompassado.

Se amar é tempestade em mar aberto,
A amizade é um boteco mais discreto,
Com papo bom, cerveja boa e gelada.

É melhor ser camarada, porém liberto
Do laço que aperta - e, tão esperto,
Parto sem drama, sem rumo, sem nada.

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