Os Mais Belos Sonetos

Coletânea de sonetos escritos por poetas brasileiros, lusos e de outros paises

Mauro Mota

Passos incertos sobre as lajes frias, 
sigo em busca de ti, sigo à procura 
do tumulto da vida de outros dias, 
que foi contigo para a sepultura.

Sinto, na solidão da noite escura, 
de onde estás, não me abandonas: guias, 
e que vais a meu lado, de alma pura 
como, nos tempos que morreram, ias. 

Amo-te mais depois que fostes embora, 
Nas lajes frias meus incertos passos, 
deixas de ser a eterna ausente agora. 

Chegas, transfigurada, dos espaços, 
e eu vou contigo pela vida afora, 
conduzindo a tua alma nos meus braços.

Carlos Arnaud

Na sombra que envolve a terra calma,
Um cântico etéreo em véus se acende,
E a estrela brilha, despertando a alma,
Que à paz divina em júbilo se rende.

O tempo dorme em luz, repousa a palma,
Do céu descende a aurora mais candente,
E o anjo guarda, em silêncio, a alma
Que ao Cristo oferta fé pura e silente.

Na noite santa, o sonho se perfuma
Com sinos leves, místicos, serenos.
E o coração se abre em luz, em suma,

Natal é a festa dos mistérios plenos,
Onde o Divino em carne se consuma,
E que sinta dos céus os seus acenos.

Carlos Arnaud

Na branca neve da montanha agreste,
Ergue o vulto da mais rígida negação;
O Grinch contempla a festa, que veste
De luz e canto em plena comemoração.

Lá na vila do Quem, num júbilo celeste
Ressoa firme em cantarolas e vibração;
E o ser que odeia, sem que o manifeste,
Sente quebrar-se na mais dura solidão.

Mas eis que a chama, do súbito fulgor,
Transborda e rompe o cárcere animal;
E o peito duro se abre ao terno amor.

E o Grinch, livre o mito do ser do mal,
Descobre a fé, descobre que há valor
Na noite santa e encantada de Natal.

Carlos Arnaud

Partiste como a luz que do céu desmaia,
Sem rastro, sem rumor, sem despedida.
Ficou no chão a sombra que se espraia,
Do vulto teu, que foi minha guarida.

Teus olhos, que eram lâmpadas de alfaia,
Apagaram-se na triste névoa da partida.
O tempo - esse escultor que tudo ensaia,
Talhou em mim tua ausência mais doída.

Não clamo aos deuses, nem ao firmamento;
Aceito o fim com amargo discernimento,
Como convém ao verso e à prosa sem paixão.

Angelina, se algum lugar tua alma habita,
Que veja este soneto - e então permita,
Deixar-me viver aqui, nesta doce ilusão.

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